Cigarro é responsável por mais de 30% das mortes por câncer no mundo
Dos cerca de 1,25 bilhões de fumantes do planeta, mais de 30 milhões são brasileiros

O cigarro é uma das grandes preocupações na saúde pública brasileira. O
consumo de tabaco está entre as principais causas de doenças crônicas não
transmissíveis. De acordo com o Ministério da Saúde, no Brasil, atualmente, 16%
da população adulta é fumante. O índice ainda é considerado alto, mas já foi
pior. Em 1996, por exemplo, 33% dos adultos brasileiros fumavam.
O tabagismo é considerado a principal causa isolada evitável de câncer. Além do
câncer de pulmão, ele é também fator de risco para neoplasias de laringe,
pâncreas, fígado, bexiga, rim, esôfago, mama e leucemia mielóide. Dos seis tipos
de câncer com maior índice de mortalidade no Brasil, metade (pulmão, colo de
útero e esôfago) tem o cigarro como um de seus fatores de risco.
O câncer de pulmão é o mais freqüente dentre aqueles que fumam. Estima-se que
30% dos óbitos por câncer e 90% dos casos de câncer de pulmão no mundo estejam
relacionados ao consumo de tabaco. Dos cerca de 1,25 bilhões de fumantes no
mundo, mais de 30 milhões são brasileiros.
Tanto o cigarro como seus derivados possuem mais de quatro mil produtos
químicos. Desses, 30 tem poder cancerígeno comprovado. A nicotina é o mais
nocivo desses componentes. Responsável pela dependência química, seu poder de
submissão é semelhante a drogas como o crack e a cocaína. O alcatrão e o
monóxido de carbono seguem em segundo e terceiro lugares da lista. A fumaça
também contém substâncias radioativas, como o polônio 210 e o cádmio (encontrado
em baterias de carros). Juntas, essas substâncias trazem problemas irreversíveis
ao nosso organismo.
O câncer não é o único mal causado pelo tabaco. Estudos apontam que o cigarro é
responsável por doenças respiratórias, cardíacas, vasculares, deficiências
auditivas, complicações de diabetes, asma, maiores chances de contusões em
atividades físicas e até depressão.
De acordo com o médico pneumologista dr. Valfredo Budin, cerca de 90% dos
pacientes com câncer de pulmão do Hospital Amaral Carvalho são fumantes. “Isso
não significa que a doença deles está associada somente ao fumo, mas o cigarro
contribui, e muito, para agravar o quadro”, explica.
Tabaco: efeito a longo prazo
Mas, e aquele avô que viveu até os 90 anos e não teve complicações por causa do
cigarro? Seu vizinho, que não fuma e tem câncer? São perguntas que
constantemente ouvimos de usuários quando o assunto é parar de fumar. “O
importante é que essas pessoas entendam que estão se expondo a riscos. Algum
parente seu fumou muito tempo e não teve nada? Sorte a dele. Ninguém é igual e a
maioria pode sim ter complicações devido a fumaça do tabaco”, enfatiza dr.
Valfredo.
Além disso, o tabaco não causa problemas assim que iniciado seu uso: o efeito é
cumulativo. Quem fuma há mais de 20 anos, por exemplo, já está em uma perigosa
faixa de risco da doença. Mesmo que o uso do produto seja interrompido, ainda
que a incidência seja menor, o risco de problemas devido ao tabaco sempre irá
existir. “Por várias razões, o uso contínuo de tabaco modifica nossas células,
nosso tecido. Com a agressão constante, eles adquirem uma ‘cara’ diferente e
essa modificação é permanente”, explica o médico.
A indicação do pneumologista é que fumantes há mais de 20 anos façam um Raio-X
do tórax a cada seis meses. O objetivo é detectar precocemente nódulos
cancerígenos e garantir a cura do paciente. É possível resolver 70% dos casos de
câncer de pulmão detectados em estadiamentos iniciais.
Não fumantes: cuidado
Desde o dia 7 de agosto entrou em vigor no Estado de São Paulo a nova legislação
antifumo, que proíbe o ato de fumar em ambientes fechados de uso coletivo como
bares, restaurantes, casas noturnas e outros estabelecimentos comerciais. Mesmo
os fumódromos em ambientes de trabalho e as áreas reservadas para fumantes em
restaurantes ficam proibidas. A nova legislação estabelece ambientes 100% livres
do tabaco.
A nova lei busca proteger, principalmente, o fumante passivo. Estudos
comprovaram que os males do cigarro não são apenas para quem fuma, mas também
para aqueles que se vêem expostos à fumaça do cigarro. Segundo dados da OMS
(Organização Mundial de Saúde), o fumo passivo é a terceira maior causa de
mortes evitáveis no mundo.
“Pessoas que convivem com fumantes tem uma incidência 20% maior de câncer do que
aquelas que não possuem contato nenhum. Quem aspira a fumaça também está sujeito
a ter complicação”, alerta dr. Valfredo. Para o médico, a proibição veio em boa
hora. “Uma vez que a pessoa fica limitada, maiores são as chances de que ela
abandone o vício”, finaliza.

O médico pneumologista do Hospital Amaral Carvalho, Valfredo Budin
Bruna Oliveira - Foto: Bruna Oliveira
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