A Arte de ser Estudante
Por Gislaine Becker
Penso que ser estudante, além de ser uma profissão considerável, deveria ser,
também, considerado uma arte.
Desde os primórdios da Educação, muitas coisas foram pensadas, estudadas,
pesquisadas, alimentadas cientificamente ou não. Sempre interessante também ter
considerações sobre o próprio tema em si. Essa temática entre o homem e a
educação sempre levantou muitas polêmicas e dentro da filosofia cabe-nos
perceber no que consiste o ato de educar. A filosofia, segundo o professor
Chaves( Eduardo Chaves), dentro de um pólo analítico, é aquela atividade
reflexiva, realizada, por meio de análise e de crítica pelo ser pensante, no
exame do significado e dos fundamentos de conceitos, crenças, convicções e
pressuposições básicas, mantidos por ele próprio ou por outros seres pensantes.
Quando paramos para refletir sobre algum tema, sempre somos mais que um
pensante, nossas idéias não são nossas, na verdade são compostas de tudo que nos
cerca, de tudo que vivemos, aprendemos e adquirimos ao longo do tempo. Bem
verdade, passam a ser nossas quando somada a outras idéias, constituem uma idéia
nova e mesmo assim não são puramente nossas.
Mas, estou refletindo a respeito da educação e seus aprendizes porque quero
escrever sobre uma categoria de pensantes. Todavia, aqueles pensantes que não
detêm o grau de mestres, doutores e pós-graduados. Refiro-me aqueles que estão a
caminho, cursando, com ou sem a intenção de se tornarem pós-graduados em seus
estudos, ou na sua vida profissional. Simplesmente, estudam.
E, tudo isso leva-me a pensar e uma pergunta se forma: o que seríamos, de nós
professores, sem nossos alunos?
Ser estudante é uma arte. É a arte de tentar entender o que o outro está
tentando explicar.
Ser estudante é uma arte quando este, mesmo sem compreender o que está sendo
dito, procura recursos auxiliares para tentar entender o outro.
Ser estudante é uma arte quando recebe comentários que soam sobre a sua não
capacidade de assimilar o conteúdo e mesmo assim ao longo do tempo consegue um
lugar consideravelmente aceitável, mas não para o outro e sim para ele.
Ser estudante é uma arte quando este trabalha oito horas por dia e mesmo assim,
ao cair da noite, fatigado, entra em sala de aula para aprender e sabe-se lá o
que vai encontrar pela frente. Talvez, um outro também tão cansado quanto ele.
Ser estudante passa a ser uma arte quando das profundezas de um aprendizado mal
estruturado ele passa no vestibular.
Ser estudante é uma arte quando ele “roda” no vestibular e mesmo assim se supera
e entende que vestibular é nada, a não ser mais uma prova que não prova nada da
sua capacidade e das suas habilidades.
Ser estudante passa a ser uma arte grandiosa quando nosso aluno percebe a
necessidade do estudo diante do mundo moderno.
Escrever sobre os estudantes, independente da sua nacionalidade, sempre me
comove muito, aliás, penso que deveriam ter uma comunidade mundial em defesa
desses, pois quantas coisas escutam ao longo do percurso estudantil que daria
para escrever um manual de como não ser um bom estudante.
Vou sempre defender o aluno, sempre, porque acredito que em algum momento
falhamos. Então, quando paro para pensar sobre o que é ser um estudante,
penaliza-me muito esse pensar, porque forma em minha idéia o ser indefeso que
desconhece o saber e mesmo assim não é encaminhado para que este saber se
constitua.
Alguns colegas dizem-me que estou errada, que existe, realmente, estudantes que
nada querem saber do aprender, que nada podem fazer pelo estudante, digo, pelo
aluno que está diante dele. Até nem tiro a razão deles, não dos meus colegas,
mas dos estudantes. Porque sinceramente, trabalhar o dia inteiro, ou levantar
cedo e ir para escola, ou depois de um período desgastante do dia, entrar em uma
sala de aula e encontrar aquele de rosto amarrado, colado em uma cadeira,
pedindo que abram suas apostilas e façam a leitura em voz alta, ou em grupo, e
passar todo período dentro da sala, sem citar outras coisas que bem sabemos, é
para morrer.
E, para os artistas mais audaciosos, aqueles que enfrentaram uma faculdade com
os mesmos paradigmas dessa educação, com ou sem bolsas de estudos, que em
determinado momento deixaram de doar o seu tempo àqueles que amava, que deixaram
de fazer suas melhores atividades de lazer, e mesmo assim insistem em continuar
a mostrar a nós professores que, apesar de terem passado tudo isso durante a
aprendizagem inicial, querem seguir, querem se arriscar no novo para quiçá
quebrar essa corrente feita ao longo do tempo e serem realmente bons naquilo que
fazem.
O que me conforta nesse pensar todo é saber que um dia eles vão crescer e, com a
nossa ajuda ou não, vão conseguir ser grandes e fortes.
Só falta a nós escolher como queremos ser lembrados por esses estudantes que
fizeram do ato de estudar uma arte de persistência.