A cantora, o hino e os diamantes
Por A. Zarfeg
Em vez de se preparar com antecedência para cantar o hino nacional numa
homenagem às mulheres, em 8 de março, na Assembleia Legislativa de São Paulo, a
cantora Vanuza se acomodou, se estressou, se automedicou e o resultado disso
todos conhecemos: um vexame nacional.
Depois, veio a público culpar a labirintite de que sofre pelo constrangimento
musical. E não perdeu a oportunidade para lembrar que o hino é difícil,
equivocado e precisa, com urgência, ser substituído... “Quem sabe cantar o hino
nacional?”, desafiou, como se quisesse dizer: “Ninguém sabe cantar o hino
nacional”.
Se tivesse sido um pouco mais profissional (nem precisava ser patriota), porém,
Vanuza teria se saído melhor – ainda que, convenhamos, dificilmente chegasse
perto das execuções de Fafá de Belém durante as Diretas-Já!
De todo modo, a cantora da Jovem Guarda não deixa de ter razão. A letra do hino
não é nada fácil (foi escrita há cem anos, completados no mês de abril de 2009),
com palavras pouco conhecidas ou de todo ignoradas pelos brasileiros atualmente.
Basta lembrar, por exemplo, plácidas, brado, retumbante, fúlgidos, penhor,
impávido, colosso, fulguras, florão, garrida, lábaro, flâmula, clava, etc.
Além disso, a maneira como Joaquim Osório Duque Estrada compôs os versos tende a
dificultar a compreensão do sentido deles. Para início de conversa, o hino
começa com uma inversão daquelas de arrepiar até os autores barrocos mais
inspirados. Vejamos: “Ouviram do Ipiranga as margens plácidas / De um povo
heroico o brado retumbante...”
O pobre do estudante vence o fundamental e chega ao final do médio sem saber
que, na verdade, “as margens plácidas” é que são o sujeito de “ouviram” e não “o
brado retumbante”, como os coitados são levados a crer, equivocadamente.
Não teria problema se os tais versos aparecessem na ordem direta: “As margem
plácidas do Ipiranga ouviram o brado retumbante de um povo heroico...”
Simples, não? Contudo (é preciso enfatizar isso), um hino é um texto poético por
excelência e – como toda produção literária que se preze – lança mão de recursos
estilísticos e, também, de imagens grandiosas para louvar a pátria. Isso
significa que, se por um lado, aqueles versos seriam facilmente compreendidos,
por outro, não teriam a mesma expressividade e beleza que o autor lhes imprimiu
tão bem.
O hino também é acusado de apresentar gafes e até (quem diria) erros
gramaticais! Uma gafe: “Deitado eternamente em berço esplêndido” – passa a ideia
de que este é um país de preguiçosos. Um erro gramatical: “E o teu futuro
espelha essa grandeza” – como o futuro espelha alguma coisa se ele ainda não
aconteceu? Ora, a grandeza é que espelha o futuro...
Outro inconveniente: por ser extenso, ele desestimula as pessoas. Sem contar
que, por começarem de forma parecida, estes dois versos acabam gerando confusão:
“Brasil de amor eterno” e “Brasil de um sonho intenso”. E por aí vai.
No entanto, coube aos políticos uma contribuição decisiva para a onda de
indiferença para com o hino nacional. Sabe-se que, durante a ditadura militar,
foi criada uma aura sagrada em torno do hino, cuja letra e maneira de portar
durante sua execução os alunos tinham a obrigação de saber. Sentimos isso na
pele. Tal imposição afastaria toda uma geração de brasileiros do importante
símbolo nacional. Em alguns casos, o desinteresse virou desdém, desrespeito. Uma
postura lamentável, embora justificável.
Do exposto, fica difícil prever se os brasileiros vão gostar do hino nacional
como gostam do hino do time de sua preferência – o qual executam com prazer e
espontaneidade. Mas, com certeza, essa tarefa enorme caberá sobretudo à escola,
que deverá apresentar os brasileirinhos ao hino com civismo, consciência e
prazer.
Porque o hino nacional, apesar de todos os defeitos e ufanismos, já faz parte da
nossa identidade cultural, do nosso jeito verde-amarelo de ser. Como os
diamantes, ele é para sempre.