| Maradona, tatua o Dunga
Por Eduardo Vieira Costa*
Maradona carrega no ombro direito a imagem tatuada de
Che Guevara. Na perna esquerda, leva Fidel Castro. Em comum
com os líderes da revolução cubana, muito além de qualquer
tipo de ideologia, o ex-jogador argentino tem a aura de
mito. Por isso mesmo, ele próprio é tema de inúmeras
tatuagens não só na Argentina mas também mundo afora.
Exemplo emblemático: o meia Lucho Gonzalez, que tem sido
convocado regularmente pelo técnico argentino, tem na perna
esquerda uma tatuagem de Maradona com a camisa da seleção
nacional.
Alguém já imaginou um atleta da atual seleção brasileira
--ou qualquer pessoa no gozo de perfeitas faculdades
mentais-- com uma imagem do Dunga eternizada em tinta no
próprio corpo?
Pois é. Acontece que Maradona é um mito. É considerado como
Deus por muitos argentinos, e ele próprio parece acreditar
nisso. Unanimidade nacional. Ou, pelo menos, era.
Essa passagem do ex-jogador como técnico da seleção jogou
sua imagem lá para baixo. O motivo é óbvio. Ele não é e nem
nunca foi técnico. Jamais deveria ter sido.
Pior: não aceita críticas. Seu time é um verdadeiro catado,
mudou drasticamente a cada rodada das eliminatórias, não
jogou nada, esteve na iminência de ficar fora até mesmo da
repescagem para o Mundial. E Maradona ainda acha que não
merecia ser malhado pela imprensa. Afinal, deve mesmo achar
que é Deus.
Após a vitória em Montevidéu, mandou todos os jornalistas
"chuparem". Um desabafo bem vergonhoso aos que ousaram
criticá-lo. Se pudesse, ele com certeza dispararia tiros de
chumbinho contra os repórteres, como fez certa vez com
alguns que estavam em frente a sua casa.
Em meio a seu showzinho na coletiva de imprensa, Maradona
disse que dedicava a conquista da vaga ao povo argentino, e
só a eles. Ignorou, no entanto, uma pesquisa do jornal "La
Nación" que mostrou que 85% do público não o quer como
treinador do time nacional.
A voz do povo, neste caso, não parece ser a voz de Deus.
Logo após ter assumido a seleção, Maradona disse que queria
um time bem diferente da seleção brasileira de Dunga. "Se
minha equipe vai jogar como a de Dunga? Não, não jogo como
Dunga. Ele dava botinadas e eu me esquivava delas", disse.
Mas o treinador argentino deveria rever sua opinião. Melhor
adotar o estilo de Dunga do que não ter estilo nenhum. Fora
de campo, o modo rude de tratar a imprensa já não difere
muito.
Quem sabe Dunga não pode se tornar até ídolo de Maradona.
Quem sabe Maradona não será o primeiro a fazer uma tatuagem
de Dunga. Deve haver espaço para uma ali na perna direita.
Não era a perna boa, mas o técnico brasileiro vai entender
que a outra já é de Fidel Castro.
Críticas ao comportamento e à capacidade de Maradona como
técnico à parte, fico feliz de a Argentina ter se
classificado para a Copa. Qualquer Copa sem Argentina,
Brasil, Alemanha ou Itália ficaria mais chata. E torço
também para que o Uruguai passe pela Costa Rica na
repescagem e se classifique, apesar de o time celeste ser
muito, muito ruim.
Eduardo Vieira Costa/Editor de Esporte da
Folha Online*
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