Mulheres, serviço militar e serviço social
Por Julio César Gaberel
Forças Armadas
Notícia publicada no jornal O Globo de 06/10/2008:
"Um novo plano de defesa nacional poderá tornar o serviço militar obrigatório
para as mulheres. Se o projeto elaborado pelo ministro da Secretaria de Assuntos
Estratégicos, Mangabeira Unger, e o ministro da Defesa, Nelson Jobim, for
aprovado, mulheres vão ter que se alistar e prestar serviço social durante um
período determinado. Segundo os ministros, o plano ajudaria a fortalecer o
trabalho social no país, além de diminuir a evasão escolar".
O militar (seja homem ou mulher) está sujeito a um rígido regime disciplinar, no
qual um atraso ao chegar para o expediente, um uniforme que não esteja em boas
condições ou não pagar uma dívida são motivos suficientes para a perda da
liberdade. Além das transgressões disciplinares, o militar está sujeito a ter
determinadas condutas criminalizadas pelo CPM, como por exemplo desobedecer
ordem de superior hierárquico, que no meio civil também é punível, podendo
render ao empregado uma advertência, suspensão ou até mesmo a perda do emprego,
mas NUNCA a perda da liberdade, por ser esta um dos bens maiores do ser humano e
ferrenhamente defendida por nossa Constituição. Entretanto, na qualidade de
militar, a recusa de obediência à ordem de superior sobre assunto de serviço é
CRIME punível com detenção de um a dois anos! Este já seria argumento suficiente
para demonstrar o absurdo de impor regime militar não para defender a nação, mas
para fazer serviço social.
Toda a rigidez da hierarquia e da disciplina é justificável pela atividade-fim
do militar, que é guerrear, último recurso que um Estado possui para garantir
sua existência face a agressões externas. Na reportagem do O Globo foram citados
os Estados Unidos e Israel como alguns dos países que recrutam mulheres;
entretanto, não foi dito que nos Estados Unidos o serviço militar não é
obrigatório e a mulher militar executa atividades militares (obviamente). Em
Israel o serviço militar é obrigatório mesmo para as mulheres, mas, além da
atividade executada também ser de cunho militar, a realidade lá é outra: a
população é em número extremamente menor que a nossa, havendo necessidade de
preparar também as mulheres para o combate. Israel é um Estado cercado de
potenciais inimigos e as hostilidades são iminentes, o que não é nosso caso.
Nossas Forças Armadas já demonstram ter enormes problemas como equipamentos
sucateados e falta de verba para alimentar seus soldados (durante
aproximadamente 3 meses por ano o expediente é apenas pela manhã, para não ser
servido almoço à tropa). Como se pode então aumentar esse efetivo não em nome da
defesa da pátria, mas em nome da execução de serviço social?
Parece piada, mas o que pretendem é OBRIGAR jovens adolescentes a executar
trabalho social (que deveria ser voluntário) sem opção de escolha e sem opção de
sequer questionar, sob pena de no mínimo serem acusadas de transgressão
disciplinar. Na realidade, as jovens recrutas irão trabalhar a um custo
baixímisso (o STF já decidiu que recruta pode ganhar menos que um
salário-mínimo), sem horário fixo (como dizem nos quartíes, "militar é militar
24 horas"), tendo que aceitar tudo que lhes for imposto sem reclamar (pois
estarão sob regime militar).
A prestação de serviço social deveria fazer parte da vida de todos nós e é
excelente ato de solidariedade humana, MAS QUANDO OCORRE DE FORMA VOLUNTÁRIA. Ao
que parece, trata-se mais de uma jogada política que humanitária, onde alguém
pretende ganhar o mérito e o apoio popular, para quem sabe no futuro tornar-se
Presidente da República...