Uma bola de neve em meio à seca
Por João Antonio Ferreira da Motta*
A nossa região vem sendo castigada há longos anos na
produção agropecuária. As frustrações de safra nessa
primeira década do século 21 contribuíram para o agravamento
dessa situação. O Médio Vale do Paranapanema, no Estado de
S.Paulo, é constituído em sua maioria de pequenos e médios
produtores rurais e estamos vendo essa categoria ser
reduzida, para não dizer dizimada pela falta de uma política
adequada às necessidades dessa classe.
As safras de verão de 2003/04, 2004/05 e 2005/06 foram
prejudicadas pelas intempéries e em 2005 tivemos decretado o
estado de emergência. Mas antes disso, na década de 90 já
sofremos com os planos Collor e Verão, e em conseqüência
disso, as dívidas da securitização e do Pesa se arrastam até
hoje.
No verão 2008/2009, tivemos frustração de safra por causa da
seca prolongada. Vários municípios do Médio Vale do
Paranapanema decretaram estado de emergência, mas o Estado
não reconheceu a situação de calamidade, embora o governo
federal tenha lançado a resolução para renegociação das
dívidas rurais. Somente o Banco do Brasil prorrogou as
dívidas de operações de custeio, deixando de lado as
operações de investimento. Os bancos privados não fizeram
nada.
Este ano, a safrinha de inverno também foi prejudicada por
geadas. Isso também gerou outros decretos de emergência e
dessa vez com homologação estadual, mas infelizmente, o
governo federal não editou nenhuma resolução para remediar o
problema.
Em 31 de outubro venceram as parcelas de securitização.
Neste mês de novembro estão vencendo as parcelas de
investimentos. E em janeiro vencem as parcelas referentes à
safrinha. Nesse ínterim, os produtores rurais não tiveram
rendimento algum.
Acrescente-se a isso os altos custos operacionais, a
insuficiência de recursos para produção por parte dos bancos
oficiais, os baixos preços dos principais produtos
produzidos nesta região e também, o descaso dos bancos
privados em respeitar a resolução do Banco Central referente
ao alongamento de dívidas rurais.
Todas essas dificuldades jogam o produtor nas teias das
revendas e das multinacionais, e não tem outra saída a não
ser sujeitar-se aos juros abusivos e aos acordos
unilaterais.
Em 2009, os preços do trigo, milho, café, boi e suínos, só
para citar alguns, atingiram os mais baixos patamares do
mercado e para piorar, a previsão para o preço da soja na
colheita em 2010, é de queda.
Imagine, então, essa situação sendo repetida ano a ano,
durante décadas. Pois é essa a nossa situação. Vemos nossas
dívidas inflarem ano a ano e vemos nosso rendimento minguar
na mesma proporção.
Muitos produtores estão em processo de insolvência,
inclusive perdendo suas máquinas e propriedades para
empresas e cooperativas.
Precisamos de políticas e decisões eficientes com urgência.
Isso, em todas as esferas do poder público, pois a situação
é grave, como nunca visto antes.
A nossa sugestão é, mais uma vez, a suspensão imediata de
todas as dívidas, para posteriormente estudar uma forma de
reunir todas as dívidas em uma só e alongá-la com redução de
juros e prazos condizentes com a capacidade de pagamento.
Isso apenas para suavizar as dívidas do passado.
Paralelo a isso é fundamental dar sustentabilidade ao
pequeno e médio produtor com um seguro que garanta a
produção e a renda no campo. A nossa preocupação se foca
nessa classe produtora porque ela não se encaixa nem nos
moldes do agronegócio e nem no módulo da agricultura
familiar e por isso mesmo a mais fragilizada.
*João Antonio Ferreira da Motta é Presidente
do Sindicato Rural de Cândido Mota |
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