| A Polícia em proteção ao cidadão idoso
Por Archimedes Marques*
“A comunidade não pode se acostumar à decadência e
a estagnação como o peixeiro se acostuma ao mau cheiro da
peixaria." (Gilberto Lems)
A atual Polícia, a Polícia cidadã que fora plantada com a
Constituição Federal em vigor, nasceu, cresceu, floresceu e
já dá bons frutos para toda a sociedade brasileira cumprindo
sua função de bem proteger a população contra as ações
criminosas diversas e lutar pela cidadania geral.
Dentre todas as classes sociais, dentre todos os grupos de
pessoas, encontram-se os grupos dos vulneráveis que carecem
de uma maior atenção e proteção por parte da Polícia e das
demais organizações constituídas para bem zelar pelo Estado
Democrático de Direito estabelecido no nosso País.
Os considerados vulneráveis são aquelas pessoas que por
condições diversas têm as diferenças estabelecidas entre
eles e a sociedade que os envolve e que em conseqüência os
transformam em desiguais. A desigualdade, entre outras
determinantes, torna a pessoa em incapaz ou pelo menos,
dificulta enormemente a sua faculdade de livremente
expressar a sua vontade própria.
Dentre os vulneráveis que necessitam de proteção especial
por parte da Polícia, fará o presente texto somente menção
ao idoso que também urge de tratamento adequado abrangente a
toda a sociedade que o cerca.
A Organização Mundial da Saúde classificou cronologicamente
como idosa no nosso País e em outros em desenvolvimento, a
pessoa com mais de 60 anos de idade, e assim as nossas Leis
seguiram tal classificação e orientação para estabelecerem
os seus direitos inerentes, cuja obrigação de cumprimento é
da família, da comunidade, da sociedade e do Poder Público
em todas as suas esferas, órgãos e instituições.
A enciclopédia virtual Wikipédia nos ensina que: “As pessoas
idosas têm habilidade regenerativas limitadas, mudanças
físicas e emocionais que expõe a perigo a qualidade de vida
dos idosos. Podendo levar à Síndrome da Fragilidade,
conjunto de manifestações físicas e psicológicas de um idoso
onde poderá desenvolver doenças.”
O Advogado RAEL ROGOWSKI no seu artigo intitulado “No
crepúsculo da existência” tece considerações quanto ao fim
do ciclo da existência humana que, por si só, já traz seus
infortúnios, como as limitações físicas, as perdas
anatômicas como a audição, acuidade visual dentre outros não
melhores que levam o idoso a uma maior fragilidade e
desigualdade de condições no âmbito da sociedade em que se
vive.
A Constituição Federal em 1988, chamada carinhosamente de
Constituição cidadã, configurou os direitos do cidadão
dentre os quais o do cidadão idoso que eram pouco
respeitados, entretanto, somente 15 anos depois é que foi
promulgada a Lei nº 10.741 em 1º de outubro de 2003,
ganhando a denominação de Estatuto do Idoso que é um
instrumento de garantias básicas desse grupo e estabelece
todos os seus direitos fundamentais com proteção integral do
Poder Público, contudo, o distanciamento entre a Lei e a
realidade dos idosos no Brasil ainda é enorme e preocupante.
É triste ter que constatarmos, que apesar dos avanços
sociais, apesar de seis anos de vigência do Estatuto, uma
grande parte da sociedade ainda trata o idoso como se fosse
ele um “traste qualquer, sem mais utilidade alguma, um
simples objeto descartável, um fardo pesado e inútil, um
resto de ser humano, uma coisa imprestável. Para muitos
envelhecer é passar do ativo ao passivo, ou seja, deixar de
fazer para que façam por ele, é deixar de ter valor, deixar
de ter habilidade, deixar de ter opinião própria, deixar de
ser cidadão e, passar a ser limitado em tudo. Isso em todos
os setores da vida é assim, inclusive nos locais de
trabalho. Envelheceu, se aposentou, logo a sua larga folha
de serviço prestados ao povo é colocada num canto e só
lembrada pós-morte. Esquecendo-se de valorizar em vida a sua
sabedoria adquirida na pratica da sua trajetória.
Esquecendo-se de enaltecer a riqueza da experiência
acumulada ao longo dos anos da sua existência. Esquecendo-se
que o idoso pode trazer de volta, pode resgatar muitos
valores perdidos pela violência da sociedade que em
desabalada correria deixou-se cair pelo caminho, tais quais:
A honra, a dignidade e a honestidade, trina valoração maior
dos tempos idos, dos velhos tempos”
A questão da humilhação, dos maus tratos e crimes diversos
praticados contra os idosos continua sendo sério problema no
seio da nossa sociedade apesar de todos os órgãos de
denúncia, ajuda e proteção, criados a partir da Lei
especifica em vigor. O idoso continua sendo vítima dos mais
diversos tipos de violência, tanto no âmbito social e
familiar quanto na área das entidades públicas e privadas
diversas que agem como se estivessem acima das Leis, quando
na verdade, por conta disso, encontram-se à margem dessas.
As Delegacias Especializadas em Proteção ao Idoso que já se
fazem presentes nas principais cidades do País, e quando
não, as demais unidades da Policia Civil fazem as suas
vezes, continuam recebendo diariamente diversas ocorrências
de fatos negativos e criminosos praticados contra o idoso em
todas as áreas de transgressões possíveis.
O ser humano, único ente supostamente racional, é
responsável por todos os atos que pratica. Todos aqueles que
são imputáveis penalmente sabem perfeitamente que tem que
enfrentar a força das Autoridades superiores em caso da
infração das Leis do País, estabelecidas para bem da ordem
comum. Alguns procedem corretamente para com o idoso graças
a um impulso instintivo de retidão, amor recíproco,
concordância e respeito absoluto às normas. Outros andam no
caminho da legalidade apenas por temor à Justiça. Outros,
porém, não pensam nem agem, nem de uma maneira nem de outra,
somente querem levar vantagem em tudo, ultrapassando todas
as barreiras da dignidade e praticando todas as espécies de
transgressões em nome da sua irracionalidade e
inconseqüência.
A mídia mostra de quando em vez, reportagens com filmagens
de idosos sendo maltratados pelos chamados “tratadores”
dentro das suas próprias residências e, também por
funcionários ou enfermeiros de clinicas, casas
especializadas nos seus acompanhamentos ou mesmo asilos. O
idoso é também vítima fácil para todas as espécies de
marginais. Constantemente sofre lesões corporais, injúrias,
homicídios, latrocínios, roubos, furtos e golpes de
estelionatos ou fraudes diversas.
Tornaram-se praxe em todas as partes do País os golpes que
as quadrilhas de estelionatários ou falsários freqüentemente
aplicam nos idosos visando as suas ínfimas aposentadorias.
Pessoas sem o mínimo escrúpulo, aproveitando-se da boa
vontade, da inocência ou da falta de discernimento ou
raciocínio lógico de muitos idosos, os enganam facilmente
até mesmo por telefone com falsas promessas ou vantagens
miraculosas, fazendo empréstimos e compras em seus nomes ou
por vezes tomando-lhes os seus proventos.
No âmbito familiar não é diferente. Por vezes os próprios
filhos ou parentes próximos, usando de artifício, ardil,
fraude ou de posse de procurações, passam a administrar os
seus proventos ou realizam empréstimos na mais alta condição
possível dos idosos para usar o dinheiro em benefícios
próprio, deixando os mesmos a passar necessidades e
privações, diminuindo ainda mais a suas mínimas pensões por
longos e intermináveis anos.
Crítica maior é a situação em que se acham muitos idosos da
classe pobre no nosso País e, pior ainda quando são eles
também deficientes físicos ou visuais que parece fugir-lhes
toda perspectivas de dias melhores. Além de tentarem
sobreviver com pensões irrisórias paga pelo Estado, fazendo
verdadeiros malabarismos com o seu minguado dinheiro, quase
sempre ainda sofrem da irracionalidade dos seus próprios
familiares que lhes tomam todos os bens materiais possíveis.
A problemática se arrasta pela área social, difícil de
resolução, quando por vezes, um idoso apesar de provedor da
família por conta da sua aposentadoria, é maltratado e
humilhado dentro da sua própria casa pelos seus filhos a
quem sustenta, e por receio, medo de represálias ou
resquícios de amor, não os denuncia, preferindo viver o
resto dos seus dias em constante inferno à espera da morte
verdadeiramente dita.
De quando em vez a Polícia age a partir de denúncias
anônimas ou telefônicas dando conta de maus tratos
praticados contra idosos em determinados locais. Comparece
nas residências suspeitas, comprova a veracidade dos fatos
através de investigação social preliminar em que vizinhos
afirmam categoricamente que constantemente ouvem gritos,
impropérios, palavras de baixo calão ou frases altamente
ameaçadoras e agressivas, barulho de vidros quebrados,
pancadas diversas além de choros e gemidos advindos daqueles
supostos lares, ao passo que, quando se traz aos autos dos
procedimentos instaurados nas Delegacias, as próprias
vítimas idosas, desmentem tudo e afirmam viverem em
harmonia, em paz, bem e adequadamente com os seus
familiares, prejudicando assim o objetivo primordial do
Inquérito Policial que é arrecadar o maior número de provas
possíveis em busca da verdade absoluta e, que por certo,
quando no Judiciário, restarão inócuas com a conseqüente
saída ilesa dos criminosos.
A rotina Policial sofre imensamente, de quando em vez, ao
constatar verdadeiros cúmulos do absurdo diante ao mais alto
grau de maus tratos aliados a ausência de qualquer
sentimento de compaixão para com o idoso enfermo, debilitado
ou impotente de reação. Já houvera casos comprobatórios
dessa miséria absoluta em que a Policia encontrou em
barracos feitos de restos de tábuas e papelão situados em
invasões, palafitas ou favelas, pessoas idosas enfermas ou
debilitadas em condições sub-humanas, prostradas em cima de
camas imundas, com aparências esqueléticas, cheias de
feridas pustulentas ou enormes chagas a eivar malefícios, em
ambiente totalmente insalubres, horríveis, fedentinos,
impregnados de urina, fezes, ratos e baratas por todo canto,
além das verdadeiras nuvens de moscas a forçarem a
existência das suas tristes, deprimentes e horrendas morte
em vida. Por vezes são idosos também doentes mentais, que
moram sozinhos, que foram abandonados pela família ou que
teimam em não procurar apoio dos órgãos estatais
competentes, de outras, são idosos que residem com filhos
drogados ou alcoólatras inveterados que na verdade são
também mortos-vivos nefastos, irresponsáveis, inconseqüentes
e desprovidos de quaisquer sentimentos.
É aí que o Policial protetor da sociedade, protetor do
idoso, também ser humano, também sensível, também filho,
também pai, também futuro idoso... Tem que se conter, tem
que saber reter as suas lágrimas, tem que se fazer de forte
para não se complicar ao querer ser um carrasco da Lei de
Talião contra os culpados por aquelas situações insanas e
agressivas a qualquer olhar sentimentalista.
As agressões, as humilhações, as fraudes e outros delitos
praticados contra os idosos não são privilégios somente de
muitos delinqüentes da classe pobre. Por vezes, com menos
freqüência, também a classe média e a rica sofre da mesma
inconseqüência, só que em casos bem diferentes, menos
agressível e menos sofrível, embora em proporções maiores em
termos de confusão pela partilha da “herança em vida” ou
pela mantença ou troca de guarda dos idosos, principalmente
quando aquele por quem se briga possui boa aposentadoria,
rendimentos outros, gorda conta bancaria ou valorizados bens
materiais.
Irmãos denunciam irmãos alegando maus tratos contra seus
pais que estão sob a guarda dos outros e, de quando em vez,
a Polícia constata no final das investigações, indícios
fortes da não probabilidade das acusações, muito pelo
contrário, caminham os autos, para restarem provados crimes
de denunciação caluniosa por conta da ganância dos
acusadores em quererem estar a qualquer custo na gerencia do
patrimônio dos idosos. É o vil metal falando mais alto para
as pessoas inescrupulosas.
Em contra partida há muitos casos adversos de briga entre
irmãos, uns jogando a obrigação da guarda dos pais para
outros, principalmente quando o idoso recebe pensão
irrisória que não dá para o seu sustento próprio. É a
insensibilidade falando mais alto para as pessoas nefastas.
E então se rasgam o Estatuto do Idoso, se desmerecem o
Código Penal, se ultrajam a Constituição Federal, se
esquecem ou pouco se importam que sejam regidos por Leis.
A trina força da linha de frente do Poder Publico trabalha a
contento para fazer valer os direitos do cidadão idoso. A
Polícia, o Ministério Público e o Judiciário agem em defesa
do idoso e da própria ordem constitucional para fazer
cumprir as Leis e punir os seus infratores.
A Polícia na qualidade de guardiã das Leis e protetora da
sociedade age preventivamente e repressivamente, evitando ou
investigando os crimes para entregar os infratores à
Justiça.
O Ministério Público na qualidade de fiscal e defensor das
Leis e da sociedade age interferindo nas ações Policiais
para denunciar os crimes ao Judiciário.
O Judiciário na qualidade de órgão processante, conciliador
e julgador pune os infratores quando da comprovação das
culpabilidades dos seus atos criminosos.
Neste contexto não podemos deixar de destacar a atuação da
Polícia, em especial, da Policia Judiciária que age no calor
dos fatos, na versão da voz trêmula dos ofendidos, na emoção
e trepidação moral causadas pelos crimes, na emergência e
constância das problemáticas e do tumulto das ocorrências e,
através dos procedimentos e Inquéritos Policiais, quase
sempre entrega ao Judiciário bons autos recheados de provas
técnicas e testemunhais, além das configurações de autorias,
materialidades e motivações dos crimes, para que assim se
façam Justiça depois dos devidos Processos Legais.
Continuemos então todos nós, as pessoas de bom senso,
consciência, racionalidade e equilíbrio, na constante luta
pelos nossos idosos... Continuemos a debater essa grave
problemática que ainda ocorre hodiernamente com os nossos
idosos... Continuemos reivindicando melhoras para os nossos
idosos... Continuemos nos mobilizando em prol dos nossos
idosos... Continuemos denunciando as arbitrariedades
praticadas contra os nossos idosos... Continuemos a exigir
os direitos dos nossos idosos... Continuemos protegendo os
nossos idosos... Continuemos respeitando os nossos idosos...
Continuemos honrando e dignificando os nossos idosos!...
Só uma luta constante, vigilante e permanente da grande
parte racional da sociedade brasileira é capaz de configurar
um novo olhar, um olhar dignificante e merecedor para os
nossos queridos idosos que são os nossos irmãos, pais, tios,
avós, parentes, amigos, cidadãos e, seremos nós num futuro
próximo, se tivermos sorte, caso a morte não antes nos leve.
*Delegado de Polícia. Pós-Graduado em Gestão
Estratégica de Segurança Pública pela U.F.S. Atualmente
lotado na Delegacia de Apoio e Defesa do Idoso, em Aracaju-
SE - archimedes-marques@bol.com.br
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