| A polícia, a legislação e o poder
paralelo.
Por Archimedes Marques*
“Se soubesse que o mundo se desintegraria amanhã,
ainda assim plantaria a minha macieira. O que me assusta não
é a violência de poucos, mas a omissão de muitos. Temos
aprendido a voar como os pássaros, a nadar como os peixes,
mas não aprendemos a sensível arte de viver como irmãos.”
(Martin Luther King)
A extrema ousadia do tráfico dos morros do Rio de Janeiro ao
abater um helicóptero da força Policial, trouxe à tona mais
uma vez a problemática antiga, a ferida crônica de difícil
extirpação, que é sem sombras de dúvidas, a questão do crime
organizado, raiz do tráfico de armas, raiz do tráfico de
drogas, raiz de todos os outros crimes subseqüentes, raiz do
aumento desenfreado da criminalidade, raiz da violência
urbana, raiz do descrédito do povo na sua Polícia, no
Ministério Público, no Judiciário, nas autoridades dos
Poderes constituídos, nas Leis do Brasil que se mostram
ineficazes para debelar esse violento e preocupante
problema.
Os fatos altamente negativos e igualmente preocupantes para
o País e para o nosso Estado Democrático do Direito, além de
deixar a sociedade brasileira atônita fizeram o mundo ficar
perplexo tal qual o tamanho da ousadia do tráfico que
ultrapassou todos os limites imagináveis da sensatez.
Objetivando buscar as origens da dura e triste problemática
real, necessário se faz voltarmos um pouco no túnel do tempo
e relembrarmos fatos que apesar de terem ficado para trás
fazem essa deprimente e vergonhosa história de violência e
descaso estatal para com o povo na sua trajetória de
sofrimento.
O crime organizado subiu os morros das cidades Metrópoles
brasileiras, em especial, no Rio de Janeiro, com a ascensão
do tráfico de drogas no início dos anos 80 e, na contramão,
o Estado desceu. Desceu e abandonou o seu povo à própria
sorte. Desceu e deixou que o tráfico fizesse as suas vezes
de comando e administração das comunidades, que o tráfico
fizesse as suas leis, que o tráfico se proliferasse feito
epidemia, com isso foram nascendo e crescendo os poderes
paralelos através do aparecimento e surgimento das facções
criminosas.
As favelas ficaram dominadas literalmente pelos traficantes,
que foram se organizando em facções, enquanto os agentes
públicos viam naquele amontoado de barracos de vida
sub-humana apenas possíveis votos a serem comprados. O crime
organizado foi fincando as suas raízes e crescendo os seus
tentáculos para alcançar funcionários públicos corruptos a
fim de poder exercer as suas atividades ilícitas mais
livremente.
O trafico foi se fortalecendo cada vez mais e arregimentando
sempre um maior número de adeptos para as suas facções
criminosas. O traficante através do seu poderio financeiro e
repressivo passou a ser conhecido e respeitado por todos
como sendo o “rei do morro”, o “comandante da área”. O
tráfico passou a funcionar nas diversas comunidades como se
fosse uma espécie de “Governo Ditatorial” paralelo ao nosso
Regime Democrático do Direito, ou seja, um poder paralelo.
Na sua “pseudo propriedade”, o chefe do tráfico, faz as
vezes do Estado realizando quase sempre, em troca de
favores, o trabalho social para a comunidade carente local.
Distribui alimentos, mantimentos e remédios que são tomados
de assalto em cargas diversas para esse fim. Funciona também
como se fosse um “Juiz opressor” na resolução das contendas
do povo. A sua palavra, a sua decisão não se discute, se
cumpre.
Como “Juiz” ele também realiza o julgamento sumário do seu
inimigo, do seu opositor, do descumpridor das suas ordens,
do informante da Polícia, do traidor da sua equipe, que
sempre são condenados à pena de morte, pena essa não
disposta no nosso ordenamento Jurídico. Morte essa que pode
ser por execução a tiros ou pelos meios cruéis da tortura.
Os fatos mostrados pela mídia referentes aos constantes
corpos encontrados em determinados locais evidenciam e
demonstram a veracidade da afirmativa, principalmente no que
tange aos morros do Rio de Janeiro, favelas de São Paulo ou
dos grandes centros do país.
Como Ditador ele faz as suas leis, faz a guerra, a
instabilidade social causando terror e medo ao povo.
Demonstra o seu poderio, força e até decreta feriado ao
determinar o fechamento do comércio e dos colégios da “sua
localidade” quando bem lhe convier.
Como “soldados” dispersos, irresponsáveis e insensíveis os
componentes do tráfico expõem as suas armas pesadas para a
mídia e atiram a esmo dos seus esconderijos em direção a
quaisquer pontos da cidade, matando ou ferindo gravemente
crianças, velhos e demais pessoas inocentes como se isso
fosse a coisa mais normal possível. De tais crimes oriundos
de “balas perdidas” nunca ninguém é encontrado ou
responsabilizado, enquanto isso, as famílias das vítimas
ficam destruídas, inconformadas e revoltadas para o resto
das suas vidas.
Através do poder financeiro o tráfico se fortalece
constantemente com os mais modernos e sofisticados
armamentos existentes para atacar os seus opositores e se
defender ou atacar a Polícia, para combater os outros
grupos, para brigar pelos bons pontos de revenda da droga,
para guerrear pelo controle dos morros de maiores
rentabilidades de venda das drogas, para mostrar para a
comunidade local e para a sociedade em geral o seu poder de
fogo, a sua força, o seu poder paralelo e, cada vez mais ser
respeitado e obedecido por todos.
Através dos seus tentáculos de corrupção em vários setores o
crime organizado consegue transitar os armamentos pesados e
as drogas para exercer as suas atividades ilícitas. Algumas
drogas, a despeito da cocaína e do crack, tidas como das
mais usadas, são advindas principalmente da Bolívia, Peru,
Colômbia, Paraguai, Venezuela e ultrapassam as nossas
divisas, as nossas barreiras misteriosamente. Seja por ar,
terra ou mar as drogas e as armas chegam às mãos do tráfico.
É também realidade nua e crua, é triste realidade, que o
tráfico de entorpecentes engrossa as suas fileiras com
crianças e jovens que funcionam na organização criminosa
como “aviões, fogueteiros, vigilantes, laranjas, informantes
e até executores de crimes diversos.” Tais crianças e
adolescentes na maioria das vezes, por total falta de opção,
ingressam nesse mundo de crime e tem aquele “trabalho” como
uma espécie de carreira profissional. Muitos sonham em ser o
rei do morro. É o chefe do tráfico como herói da criançada
que logo cedo tem nos reais fuzis, metralhadoras ou pistolas
seus brinquedos prediletos.
A ferida crônica, o câncer verdadeiro chamado crime
organizado, cresceu de forma vertiginosa e atingiu de forma
infame a cidadania e a paz interna do nosso País.
Esse câncer imenso que corrói e destrói a esperança pela
paz, pela dignidade do povo brasileiro, essa ferida
pustulenta que leva a geração presente ao descrédito das
Leis e dos Poderes constituídos no nosso País, esse vulcão
em erupção vomitando lavas ferventes e incandescentes de
tráfico, seqüestros, latrocínios, roubos, homicídios, crimes
de todos os tipos e corrupções em todas as áreas, urge de
soluções imediatas, constantes, concretas e efetivas para o
seu saneamento, sob pena da nossa geração futura sofrer
conseqüências ainda piores do que estamos a viver.
Estamos em verdadeira guerra urbana e social contra a
marginalidade diária, contra a marginalidade comandada pelos
pequenos e grandes traficantes, contra a guerra do tráfico e
contra todos os outros crimes que são gerados, criados e
originados pelo crime organizado.
Precisamos buscar nas lições do passado, nos erros do
passado, nos acertos do passado, nos exemplos bons e ruins
do passado, nas causas do problema do passado, as soluções
adequadas para projetos concretos a serem realizados e
associados no presente para o efetivo colhimento de ótimos
frutos no futuro, se possível, num futuro próximo.
Da obra literária intitulada “A Polícia na História do
Brasil” de autoria do nosso amigo, Delegado de Polícia
aposentado e eterno Policial, PAULO MAGALHÃES, hoje Advogado
em Mato Grosso do Sul e “caçador de corruptos” através da
sua empresa virtual Brasil Verdade, destacamos os dois
primeiros parágrafos relacionado ao item “Polícia, Política
e o crime organizado”, do capítulo I intitulado “Decisões
que mudaram o rumo da Segurança Pública”, ligado ao tráfico
de drogas no Rio de Janeiro, quais sejam:
“Consta, do folclore policial carioca, que o ex-governador
Leonel de Moura Brizola, para garantir sua vitória na
primeira candidatura (1983-1986), fez um acordo com o
tráfico de entorpecentes através do então “comerciante de
narcóticos” em franco crescimento Jose Carlos dos Reis
Encina (o Escadinha), irmão do também traficante Paulo dos
Reis Encina (o Paulo Maluco). Tendo os dois marginais como
cabos eleitorais e o apoio dos também bandidos Jose Carlos
Gregório (o Gordo), Paulo Roberto de Moura Lima (o Meio
Quilo), o Japonês, entre outros. Leonel Brizola conseguiu
uma expressiva votação nos morros e favelas do Rio de
Janeiro. Em troca, eleito, Brizola garantiu o “livre
comércio” de drogas, sem a interferência policial.
Por óbvio não existe documentação que ateste o acordo
criminoso, mas é sabido e notório que a polícia foi proibida
de subir os morros, os helicópteros policiais defesos de
sobrevoarem as favelas; assim, estas e outras resoluções
favoráveis ao fortalecimento da marginalidade, tomadas pela
Casa Civil de Brizola, fizeram com que a polícia não
conseguisse mais controlar o crescimento das
quadrilhas/bandos organizados, como Comando Vermelho,
Falange Jacaré, etc.”
Complementando essa deprimente possibilidade de auto e
gravíssima corrupção praticada pelo Poder Público destacamos
do mesmo livro este outro parágrafo:
“Em sede de monografia, Bruno dos Santos Rodrigues
apresentou ao corpo docente do Curso de Administração das
Faculdades Integradas Bennet o tema “Prevenção à Lavagem de
Dinheiro: Medidas Administrativas”, fazendo constar: No
começo da década de 1980, o governador Leonel Brizola
acertou proteção com os dirigentes dos morros, que
praticavam uma marginalidade periférica no Rio de Janeiro. A
polícia não subia nos morros e os traficantes não desciam à
cidade. O jogo do bicho evoluiu para o tráfico e o próprio
tráfico empresariou-se. O governo do Rio de Janeiro aos
poucos foi se afastando dos morros e favelas até o momento
em que não pôde subir mais. O narcotráfico usava seus
recursos para ajudar os favelados em seus problemas sociais:
um remédio, o pagamento de uma conta de luz, o emprego para
um garoto e a proteção contra assaltos, etc., dando a idéia
de um novo Estado, eficiente e sem burocracia. Assim nascia
o Comando Vermelho, entre outras facções, criadas para
defender seus territórios de jogo do bicho e do
narcotráfico.”
Mesmo não havendo comprovação de tais aberrantes denúncias,
como de fato só há indícios e suspeitas de veracidade
decorrentes dos próprios atos e fatos subseqüentes,
denota-se perfeitamente, que o trabalho de combate ao crime
organizado não pode ser exclusivo da Polícia, muito pelo
contrário, deve haver a união de forças dos três Poderes, em
especial, da vontade política do Governo Federal, não para
ações meramente paliativas, mas para projetos concretos,
principalmente com o efetivo fortalecimento dos organismos
de inteligência de todas as Policias do Brasil, assim como,
do apoio da própria sociedade civil que já não agüenta mais
ver e sentir tanto descaso.
Em decorrência da extrema ousadia em tamanha violência
praticada pelo tráfico, pelo crime organizado em
demonstração de força com os ataques freqüentes contra os
organismos estatais, mais de perto contra as Unidades
Policiais em que se metralharam e depredaram prédios e até
mataram Policiais e outros agentes públicos, além das
constantes queima de transportes coletivos, a exemplo de
centenas de ônibus ou vans, assim como, pelo aumento
desenfreado de todos os crimes oriundos do tráfico ou pelo
tráfico, ocorridos há pouco tempo passado, o povo clamou por
providências urgentes.
Cumprindo a vontade e os anseios da população brasileira, há
poucos anos atrás, mais de perto, nos anos 1994/95, o
Governo Federal auxiliou ao Governo do Rio de Janeiro
enviando as tropas das Forças Armadas do Exército Brasileiro
para tentar resolver a problemática do tráfico de drogas nos
morros e favelas daquela cidade, usando somente da força,
usando da violência legítima do Estado contra os
recalcitrantes, contudo, muitas e muitas injustiças foram
praticadas contra pessoas inocentes. As faltas do tato
Policial, da experiência Policial, do manejo Policial
aliados às ausências de boas informações fizeram com que os
bem intencionados soldados do Exército brasileiro não
cumprissem as suas missões a contento. A inteligência
Policial estava ausente ou pouco presente naquelas ações,
por isso os projetos restaram inócuos e ineficientes.
Os números comprovam a ineficiência das ações e, a
contabilização dos resultados não deixou dúvidas quanto ao
tamanho do despropósito: O número de homicídios subiu de
7.720 em 1993 para 8.834 em 1995. Comparando-se o primeiro
semestre de 1994 com igual período de 1995, constatou-se que
o número de seqüestros tinha pulado de 17 para 46; o de
roubos a bancos, de 78 para 150; e o de roubo de cargas de
541 para 597, conforme dados da Secretaria Segurança Pública
relativos ao ano de 1995. E lá continuaram os traficantes se
fortalecendo cada vez mais, e lá continuaram os traficantes
engordando os seus bolsos e suas contas bancárias cada vez
mais, e lá continuaram os traficantes aumentando os seus
patrimônios cada vez mais, e lá continuaram os traficantes
governando as suas bases, os seus morros, as suas favelas,
as suas comunidades, e lá continuaram os traficantes
fortalecendo os seus exércitos, e lá continuaram os
traficantes a transformar a ordem em desordem, e lá
continuaram os traficantes a receber drogas e armas
poderosas do crime organizado.
Usaram das Forças Armadas como última razão para vencer os
traficantes, para derrotar o crime organizado, Verdadeiros
exércitos de guerra, com tanques, canhões, carros blindados
e helicópteros potentes, além do substancial arsenal bélico
diverso foram utilizados naquelas ações que perduraram de
novembro de 1994 a abril de 1995 e terminou sem surtir o
efeito desejado.
O povo já está cansado das “ações pirotécnicas”, ações
cinematográficas, ações milagrosas, ações meramente de
força, ações pouco inteligentes, ações paliativas, ações
ineficientes e ineficazes que não levam a nada, ações
enganatórias em que colocam sempre a Polícia na linha de
frente apenas como uma espécie de “bucha de canhão” em
operações desastradas.
É evidente que as ações imediatas são necessárias na atual
conjuntura de crise profunda da segurança de todos em que a
ordem é relegada ao segundo plano. As ações de força do
Estado como resposta imediata a este cúmulo do absurdo
praticado contra o Poder Público, contra a cidadania
brasileira, devem continuar para o restabelecimento da ordem
ferida, contudo, as ações paralelas e subseqüentes, as ações
concretas e constantes, as ações inteligentes de todos os
órgãos envolvidos, serão essenciais, serão de suma
importância na luta contra o tráfico, na luta para por fim
ao crime organizado no nosso País.
Não há medicina que consiga extirpar de vez um câncer
generalizado, enraizado em muitos órgãos. Não há Policia que
consiga por fim de vez ao crime organizado, principalmente
com tantas ramificações como denota haver. É necessário que
se faça um grande trabalho de conscientização, paciência,
perseverança, inteligência e se corte todo o mal pela raiz.
Quando falamos em cortar o mal pela raiz, significa cortar a
própria carne em todas as instancias estatais onde for
comprovada corrupção de apoio ao tráfico, de apoio ao crime
organizado. Significa cortar a carne dentro da Polícia
quando efetivamente se comprovar que o Policial dá cobertura
ao tráfico de drogas ou de armas, significa cortar a carne
em todos os Poderes públicos quando houver ligação
comprovada de funcionários com o tráfico em geral, que se
corromperam e engrossam as fileiras do crime organizado.
Para isso precisamos de Leis mais rígidas, de procedimentos
Judiciais mais rápidos, ágeis, menos burocráticos e
desprovidos de tantos recursos. Precisamos extirpar de vez
do Poder público todos os funcionários comprovadamente
corruptos e que dão suporte com as suas parcelas de
contribuição para o fortalecimento do crime organizado.
Precisamos expurgar e punir com mais freqüência e facilidade
tais marginais travestidos de funcionários públicos.
O Legislativo deve se conscientizar, deve se engajar nesta
luta contra o tráfico, contra o crime organizado. Leis
especiais devem ser criadas para tornar o funcionário
publico corrupto mais vulnerável às punições depois dos
devidos processos legais realizados de formas ágeis. Os
crimes advindos da corrupção estatal devem ser tratados de
maneira especial e menos burocráticos. Muitos dos
funcionários corruptos são exclusos dos seus cargos e
terminam voltando ao Estado em decorrência das leis
maleáveis, da grande quantidade de recursos existentes no
Judiciário, dos procedimentos administrativos ou policiais
por vezes mal feitos e, enfim por conta de toda essa
burocracia existente no nosso ordenamento
Jurídico-administrativo. Penas mais rígidas devem também ser
aplicadas para os traficantes de armas e para os traficantes
de drogas. O traficante deve ser tratado de maneira
diferenciada pela Lei brasileira sob pena de padecermos aos
seus pés, sob pena do crime organizado se organizar ainda
mais e verdadeiramente desestabilizar de vez a ordem do
País.
Na contramão dessas idéias que se fazem altamente
necessárias as suas aplicações e que acreditamos acolhimento
da grande maioria da sociedade, assistimos agora, mesmo
depois deste episódio do abate do helicóptero que estarreceu
o mundo inteiro, mesmo depois de se comprovar a superação
dos limites da barbárie e o recrudescimento da violência na
mais bela cidade do Brasil, um projeto absurdo advindo do
próprio Governo Federal que visa beneficiar o pequeno
traficante, mas que na verdade beneficiará todo e qualquer
traficante, além de fortalecer ainda mais o crime
organizado.
O secretário de assuntos legislativos do Ministério da
Justiça declarou recentemente que em breve período o Governo
proporá mudanças na legislação, de forma a livrar os
pequenos traficantes da cadeia. Quem for flagrado vendendo
pequena quantidade de drogas, estiver desarmado e não tiver
ligação comprovada com o crime organizado, será condenado a
penas alternativas. Tal pretensão ilógica já fora batizada
pelo bom, alegre e generoso gozador povo brasileiro de PAT
(Programa de Aceleração ao Tráfico).
Essa medida, se aprovada for, será um desastre de grandes
proporções para a Polícia e para a sociedade em geral, pois
na prática estaríamos liberando de vez o tráfico de drogas,
ou seja, todos os traficantes, grandes ou pequenos estariam
sempre escondidos atrás desse escudo. Todos os traficantes
por certo fracionariam as drogas em pequenas quantidades de
papelotes ou trouxinhas e andariam a negociar o produto
despreocupadamente, talvez até livremente, vez que estariam
convictos que as suas punições em caso de prisão em
flagrante delito seriam somente simples penas alternativas,
ou seja, penas aplicadas para os praticantes de crimes de
menor poder ofensivo. Outro item altamente complicado e
complexo seria o fato da Policia em pleno flagrante
comprovar a ligação do suposto pequeno traficante com o
crime organizado. Ora, traficante é traficante!... Se o
pequeno traficante recebe a droga do grande traficante que é
ligado ao crime organizado, logo todos são interligados,
ademais todos eles causam o mesmo malefício ao usuário da
droga e a própria sociedade em geral.
Esperamos para o bem comum de toda a sociedade brasileira
que o Governo volte atrás dessa pretensão e, caso não, que o
Congresso Nacional arquive por inconstitucional, e mais que
isso, por imoral, inconseqüente e irracional que o projeto
demonstra ser.
As ações passadas e presentes demonstram que não se combate
a criminalidade matando, muito pelo contrário, os
“esquadrões da morte” do passado e as chamadas “milícias” do
presente que são organismos ilegais da sociedade civil com
supostos e prováveis membros do Poder público imbuídos de
matar marginais, também mata qualquer um que atravesse em
seus caminhos, ou até mesmo, mata por dinheiro ou por
favores outros, ou seja, tais organismos que se dizem
“justiceiros”, são na verdade marginais iguais ou piores do
que os seus próprios alvos. Ademais, os fatos demonstram que
as “milícias” também dominam morros, favelas ou parte deles,
recebe dinheiro dos comerciantes para protegê-los, está ao
lado de determinada facção, determinado traficante,
envolve-se com o tráfico, engrossa os exércitos do tráfico,
fortalece o crime organizado, em suma: É tudo farinha do
mesmo saco!...
É preciso querer mudar, é preciso da vontade política em
querer realmente mudar. Não podemos achar que a barbárie é
inevitável. Não podemos desumanizar tudo e todos. O Morro
dos Macacos marcou o ápice desta guerra de falanges. A
disputa entre quadrilhas rivais de traficantes, as facções
criminosas, tendo contra estas a Polícia, no meio, como
verdadeiro cego em tiroteio, o povo, o cidadão de bem e, na
berlinda as chamadas milícias, fizeram do Rio de Janeiro uma
verdadeira torre de babel. Os territórios não estão mais
demarcados e os limites diariamente desrespeitados. As
Policias Civil e Militar fazendo as vezes da Polícia Federal
morrem nas favelas e nos morros do Rio de Janeiro combatendo
contra armas e drogas importadas que entram pelas nossas
fronteiras por intermédio do crime organizado.
Houve, na realidade, uma privatização da soberania, um poder
paralelo, porque o Estado perdeu o controle da situação,
mas, tudo isso pode perfeitamente mudar, não em curto prazo
e sim para o futuro, basta haver a verdadeira vontade
política com bons projetos, com mudanças de Leis, com as
mãos dadas entre os três Poderes, com a limpeza e saneamento
no funcionalismo público efetivamente e comprovadamente
corrupto, com o resgate da dignidade Policial principalmente
no que tange ao seu salário, com a integração de todas as
Policias para o mesmo objetivo, com o fortalecimento dos
setores de Inteligência dos órgãos de combate ao tráfico, ao
crime organizado, com o envolvimento real da sociedade nesta
luta. Com toda essa somatória podemos recuperar a soberania
de Estado para que a ordem pública seja sempre respeitada
por todos.
*Delegado de Policia. Pós-Graduado em Gestão
Estratégica de Segurança Publica pela UFS) |