VÔO CORUJA

Por Vlad Suato

Não estive bem nos últimos tempos. Muitos estudos e muita ansiedade me levaram a uns esquentamentos inexplicáveis. Era um calor que subia e descia, meu termostato andou desgovernado... Em meio a tantas alterações de temperatura, hoje superadas após algumas sessões de acupuntura, fui pra Curitiba me submeter a um concurso público.

Juntei os amigos, que na verdade servem pra dar apoio nos momentos difíceis, e fomos pra bela capital paranaense. Enquanto eu suava realizando as provas, eles passeavam e conheciam as redondezas.

Há uma linha aérea Campinas/Curitiba feita por pequenas aeronaves, as quais transportam em média cinqüenta passageiros. Ela voa mais baixo que os grandes aviões, mais ou menos entre as nuvens... Pois bem, foi num desses vôos que voltamos, num dia de domingo, dez horas da noite.

A comissária de bordo era meio estranha. Havia maquiagem além do costume, às quais lhe forneciam grandes olheiras. Parecia, sem piedade, uma morta viva que voltava das trevas para aquele trabalho noturno... Ela sentou-se numa pequena poltrona colocada de frente para os passageiros e com aqueles olhos torneados de uma maquiagem negra, fitava atentamente os passageiros. Daquela poltrona demorou a se desgrudar, feito um certo político...

Aquela bendita luzinha que ao apagar-se indica a liberdade de desatar os cintos teimava em manter-se reluzente. Os olhos assombrados da comissária denunciavam irregularidades quando percebi um clarão.

- Vocês viram isso? O que foi?

Eu esquentava.

- Calma, é apenas a luz externa do avião...

Eu esfriava.

Por conta dos meus esquentamentos, meus amigos tentaram me poupar, mas em vão...Vi pela janela, muito próximo, um raio que mais parecia a raiz de uma antiga árvore, iluminando todo o breu assustador. Naquele instante dei conta que estávamos entrando numa tempestade. Sobrevoávamos a cidade de Cajati, segundo um dos passageiros.

Eu esquentava novamente.

Estava, praticamente, numa montanha russa. A aeronave deslocava-se desgovernadamente, como minha temperatura... Pendíamos ora para esquerda e ora pra direita, quando destemidamente fomos ao centro da tempestade (nóis capota mais num breca). O avião passou por uma queda de cerca de mil pés, pelo que ouvi dizer, levando a galera à loucura.

Nesse momento gelei.

- Não quero ver isso? – Disse uma amiga colocando a blusa na cabeça.

- Adianta não ver? Melhor fazermos uma corrente de oração! – Disse outra.

- Melhor a corrente do que um minuto de silêncio. – Disse o pândego, num momento impróprio.

E eu, quente-frio, só pensava na minha aula de medicina legal, quando o professor disse que naquela situação seria melhor engolir o documento de identidade para facilitar a identificação.

Na hora matei a charada da aeromoça. Ela teria vindo das trevas para nos buscar...

De repente, a paz. E lá vem o comandante:

- Senhores passageiros, aqui é o comandante e falo da cabine.

- Só faltava não estar na cabine; dizer que ejetou seu banco e está lá em Cajati, perguntando se há alguém que saiba pilotar a bordo. – Disse, novamente, o pândego.

- Acabamos de atravessar uma tempestade, mas o vôo já está em segurança.

Que novidade!

No chão. Salve-se quem puder. Nunca vi tanta pressa em deixar a aeronave.

Agora entendo quando o Papa João Paulo beijava o chão ao estar em terra firme.

Pior de tudo: não passei no concurso...