O circo
Por: Alcindo Garcia
Indagará a meia dúzia de leitores que me acompanha neste espaço: Crônica ou
reportagem? Crônica com jeito de reportagem, motivada pelo desabafo de um
ex-trapezista de circo. De sua fala anotei que o circo está morrendo por falta
de investimentos. O governo está acabando com sonhos de crianças e pondo fim a
mais lúdica alegria circense com seus palhaços, domadores, malabaristas,
trapezistas e ilusionistas, contribuindo para a desativação de palcos e
picadeiros.
Esta crônica com jeito de reportagem nasceu na Praça da Sé, local de
apresentações de espetáculos incríveis com equilibristas anônimos, que ali vão
ganhar alguns trocados para sobreviver. Gente que tem histórias para contar. Um
deles me mostra uma revista, amarelada pelo tempo, provando que já se
apresentara até em circos de outros países. Outro me conta que conquistou o
primeiro lugar no "Se vira nos Trinta" e mostra a sua foto ao lado do Faustão.
Vi ali figuras anônimas, num cenário de miséria, ganhando a vida nas ruas, por
conta de um governo semi-analfabeto para quem circo não é cultura.
Trocamos dedos de prosa revelando que o circo me fascina desde a infância.
Lembramos de trapezistas que há dez metros do solo, cruzavam o espaço trocando
de trapézios em pleno ar. Duplas em motocicletas, velozes, cruzavam o interior
do Globo da Morte. Os mais audaciosos percorriam o globo com os faróis das motos
acesos, enquanto as luzes do circo eram apagadas, para delírio da platéia que
aplaudia de pé os ases da motocicleta. Tornei-me amigo deles e aprendi a gostar
daqueles artistas anônimos que têm muitas histórias para contar, mas poucos são
os que param para ouvir.
Concordei com eles que a palavra circo hoje tem conotação depreciativa. Perdeu o
sentido do entretenimento para ser circo da dissimulação. Circos que patrocinam
a mentira e o despudor. Circos de horrores de gente safada protegida por hábeas
corpus para não dizer nada, autêntica confissão de culpa, um tapa na cara das
pessoas de bem. Circos de horrores banalizando os circos alegres e inocentes que
tanto encantaram nossa fantasia e nossos sonhos de criança.