| Nardoni: um julgamento e um
linchamento Por Inácio Araújo*
O que me impressionou realmente nesse julgamento do caso
Nardoni foi a existência de, digamos, dois juízos.
Um se realizava lá dentro e desse eu não entendo bulhufas.
O segundo, e mais impressionante, andou pela televisão, e
diz respeito ao lumpesinato que ficou na porta do tribunal,
ora aplaudindo o promotor, ora agredindo o defensor, ou
ainda xingando os réus etc.
Uma coisa meio circense, não há dúvida, mas muito
sintomática da exasperação das pessoas e do tipo de
percepção que se tem da Justiça.
Em poucas palavras: o que se pensa é que não há justiça.
Ponto.
Não há como dizer que estejam muito errados, nesse
particular.
Ao mesmo tempo, não era justiça que pediam, era vingança. Ou
seja, aparência de justiça.
Não se tratava de julgar os réus, mas de condená-los.
O linchamento é um pouco isso. Está no "Fúria" do Fritz Lang.
À custa de instituições que não funcionam, que são cheias de
desequilíbrios, à custa de exasperação, acabamos virando um
povo de linchadores.
E o linchamento é a massa solta com toda irracionalidade
solta.
O que significa, hoje em dia, uma massa que cultua as
aparências, a epiderme, aquilo que aparece na TV.
Um que seria linchado, se pudessem: o matemático russo que
resolveu a Hipótese Poincaré e nem por isso mostrou a cara,
não foi receber seu milhão, mandou todo mundo plantar
batata, não aceitou empregão. Esse foge ao padrão. Total.
*Inácio Araújo é crítico de cinema do jornal
Folha de S.Paulo, autor de dois livros sobre o assunto:
"Hitchcock, o Mestre do Medo" e "Cinema, o Mundo em
Movimento". É escritor, autor do romance "Casa de Meninas"
(prêmio APCA de autor revelação, 1987, em 2a. ed. pela
Imprensa Oficial do Estado/SP), do romance juvenil "Uma
Chance na Vida".
Entre os anos 1970 e 1980, foi montador, roteirista e
assistente de direção e montagem em diversas produções.
Escreveu, montou e dirigiu "Aula de Sanfona", episódio do
filme "As Safadas" (1982). |