LAVANDO DEFUNTO

Por  Ronaldo Duran*

Todo sonho tem um custo. Não raro, o preço é muito, muito mais alto do que o imaginado. Muitas vezes começamos pagar o valor no impulso, esperando que uma oportunidade surja para darmos o calote, não necessariamente ficar inadimplente, apenas buscar um valor menos agressivo.
O universitário embarcou numa viagem para os Estados Unidos, atraído pelo anúncio de emprego nada convidativo: expurgar o cadáver antes de seguir para o enterro ou o crematório.
Quantos anos este rapaz sonhou sair do Brasil e ir para os States? Que se lembra, desde que o grupo norueguês Ah-ha fazia sucesso. Precisamente, desde fins da década de 80. Terminara o colegial, iniciara a faculdade e as esperanças cada vez mais murchando. Sim, estudava inglês com afinco, mas por não ter pais que o bancassem nem emprego fixo, longe estava das benesses de um curso de inglês fora do país. Seria tão mais fácil.
Estudava inglês, sim, mas este idioma soava sofrível para sua assimilação. O entendimento da língua era baixo, logo estaria sujeito a emprego desqualificado, apesar de cursar o segundo ano de fisioterapia, numa universidade particular, a custo de bolsa de estudo.
Nem hesitou. Aprontou passaporte. Apertou ali e aqui, comprou a passagem. O visto fora facilitado pela empresa americana que o contratara. Mês e meio depois, estava ele habituado à nova rotina. Oito horas diárias de árduo trabalho. O morto chegava num estado crítico muitas vezes. Como se tratava, na maioria, de pessoas indigentes ou sem família, o serviço se mostrava uma dura prova de coragem. Os corpos oriundos de classes abastardas não tinham necessariamente melhor aspecto.
No começo, fácil surpreender o nojo estampado no rosto do rapaz diante do defunto a ser lavado, perfumado, sem contar com os algodões que deveriam ser colocados em todos os buracos, desculpe, em todos os orifícios do corpo.
A sorte é que nós humanos nos adaptamos às mais repulsivas situações. Com o universitário não seria diferente. Passado um ano no batente, ele começara a sentir orgulho de sua produção, nada a dever ao êxtase experimentado pelo mestrando que conclui uma dissertação ou uma faxineira que deixa a casa brilhando ao término de mais um dia de limpeza.
Senhores, senhoras, mocinhas, crianças, rapazes esqueléticos ou másculos. Todos passando por suas mãos. O produto final? O corpo, dentro do ataúde, exibindo ar de agradecida satisfação pelo último banho, antes que a terra o devorasse ou a fornalha o transformasse em cinza.
Para os americanos vivos que o viam com desprezo, fosse por sua pele latinamente amorenada, fosse pelo péssimo inglês falado, ele pouca atenção dava. Afinal, quando muitos deles falecessem, o corpo destituído de qualquer desprezo xenofóbico estaria sob sua responsabilidade aplicar os últimos cuidados.



* Ronaldo Duran, escritor, colabora do umdoistres - www.informativoliteraturaviva.blogspot.com