Jovens e tráfico de drogas
Por Sergio Vieira
“A gente não pode confiar nem no travesseiro que deita. (...) Depois que entra
[no tráfico], não pode mais fazer as mesmas coisas de quando era livre. (...) Se
entrou, tem que ficar até o final. É entre a vida e a morte ou então na cadeia."
Depoimento de um jovem envolvido com o tráfico no Rio de Janeiro
Os jornais de Assis, diariamente, noticiam o envolvimento – e mesmo a prisão –
de adolescentes e jovens com o tráfico de drogas. São tenras vidas que são
jogadas fora em função do envolvimento com as drogas, um mundo sem volta.
Isso é um reflexo da opção de jovens pelo tráfico de drogas diante de uma
perspectiva de vida nada promissora, que inclui falta de oportunidade de
trabalho, baixa escolaridade, moradia insalubre e preconceito social. Assim,
muitos acabam por levar uma vida curta e cheia de riscos - mas também bastante
lucrativa. O gerente-geral de uma boca-de-fumo, por exemplo, se expõe em
confrontos com a polícia e facções rivais, principalmente em São Paulo e Rio de
Janeiro, mas pode ganhar de 2 a 3 mil reais por semana.
É o que mostra o estudo dos cientistas sociais Otávio Neto, Marcelo Moreira e
Luiz Fernando Sucena, da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz). Eles traçaram um
perfil dos jovens envolvidos com o tráfico no Rio de Janeiro, exposto no livro
“Nem soldados, nem inocentes”. Ao longo de um ano entre 1999 e 2000, os
pesquisadores monitoraram e avaliaram o Sistema Aplicado de Proteção, criado
pelo governo estadual para retirar os jovens do tráfico e garantir sua
reintegração social. Os autores entrevistaram e acompanharam o dia-a-dia de 88
integrantes do projeto com idade entre 14 e 19 anos (79 homens e 9 mulheres) que
já haviam sido detidos por envolvimento no tráfico. Eles acompanharam ainda
entrevistas feitas por psicólogos, assistentes sociais e educadores de quatro
ONGs.
Afastar esses jovens do crime não é fácil. Além da falta de opções e do ciclo de
dependência química e econômica em que eles se inserem uma vez envolvidos no
tráfico, muitos não consideram sua atividade ilícita. "Eles dizem que não
obrigam ninguém a subir o morro e comprar droga", diz Marcelo. Um dos
entrevistados confirma essa visão: "É um trabalho como outro qualquer. Tem
horário, função e salário." A remuneração, aliás, é grande atrativo do mercado
das drogas: 46 entrevistados citaram 'a necessidade de ganhar dinheiro' como a
maior motivação para sua entrada no tráfico.
Dos 55 jovens que declararam sua renda semanal no 'movimento', 22 recebiam acima
de R$ 500; 15 tinham salário entre R$ 100 e 200; 4 entre R$ 300 e 400; 1 com R$
100. Os 13 restantes relacionaram seu salário à quantidade de drogas que
vendiam. Com o dinheiro, os jovens ajudam a família e também satisfazem os
próprios desejos de consumo. "Mas esses jovens estão envolvidos no 'varejo' das
drogas", ressalta Marcelo. "Esse setor, embora seja o mais visível e conhecido
do mercado ilícito do tráfico, é o menos lucrativo, sobretudo se comparado aos
que fazem a lavagem de dinheiro no mercado lícito internacional."
Os jovens podem conseguir quantias ainda maiores que as citadas acima e ascender
na vasta hierarquia do tráfico, caso demonstrem bom manejo de armas e coragem no
embate com policiais para conquistar a confiança do gerente da boca-de-fumo e do
dono. "Mas são pouquíssimos os que ascendem até os cargos mais elevados",
ressalta Marcelo. "A maioria morre antes."
O mais grave é que, na tentativa de reconstruir o convívio social, muitos jovens
ainda se deparam com preconceitos. "Cabe à sociedade não se afastar da
problemática do tráfico. Para isso, um agente imprescindível é o poder público,
por meio de políticas sociais e de segurança", diz Marcelo. "Ele deve mobilizar
a sociedade civil para tornar-se sua parceira efetiva no processo de formulação
e implementação das políticas públicas que tentem não só tirar o jovem do
tráfico, como também evitar sua entrada.". Essa realidade não é tão diferente do
que vem acontecendo em Assis. Por isso, o poder público deve agir o mais rápido
possível para evitar que estes jovens continuem envolvendo-se com o tráfico de
drogas.