A evolução do consumidor brasileiro
Giuliano Pereira
Na semana do Dia Mundial do Consumidor, data instituída em 15 de março de
1962, pelo então presidente dos Estados Unidos da América - John F. Kennedy -
para marcar o início da conceituação dos direitos do consumidor, abro a
discussão de como os direitos do consumidor brasileiro são desrespeitados e como
ainda engatinha em relação a outras regiões do mundo. Embora o Brasil já tenha
assumido uma posição importante em diversos segmentos, como é o caso de
cosméticos - segunda posição, conforme dados da Associação Brasileira da
Indústria de Higiene Pessoal, Perfumaria e Cosméticos (Abihpec) - e também é o
segundo lugar no ranking do consumo de entretenimento, segundo pesquisa Nielsen
de 2008. Além disso, o Brasil é um dos poucos Países com poder de consumo e com
uma classe C em ascensão em que a população ainda não dispõe de itens básicos
como eletrodomésticos e saneamento. Ou seja, é um mercado com forte potencial de
crescimento.
Mudanças importantes no comportamento do consumidor aconteceram, muito disso em
conseqüência do surgimento de entidades que fomentaram discussões do tema e
levaram à criação de leis, como foi o caso do PROCON – fundado em 1976 – que
teve importância fundamental na elaboração do Código de Defesa do Consumidor
(1990 - quase 30 anos depois do código norte-americano) e que está chegando na
maioridade. Essas ações e medidas, somadas à retomada da democracia e uma maior
organização da sociedade civil, levaram muitas empresas a repensarem suas
atitudes frente ao consumidor, buscando melhorar a comunicação. Serviço de
atendimento ao consumidor tornou-se quase obrigatório para as empresas, surgiu o
ombudsman e o mercado procurou se adaptar ao novo cenário.
Em pouco tempo, os produtos passaram a ter menos valor que a marca e tudo virou
prestação de serviço. Atender o consumidor bem era o básico e o discurso evoluiu
para sustentabilidade, responsabilidade social. Ter um produto de boa qualidade,
seguro, com informações corretas em sua publicidade, garantia de concorrência
saudável que dê opções de escolha ao consumidor e um canal aberto de comunicação
com o cliente se tornaram itens básicos em que todas as empresas deveriam se
enquadrar. O consumidor passou então a questionar o papel da empresa na
sociedade e qual o posicionamento em relação a questões maiores como uso de
recursos naturais, conceitos da marca, valores difundidos, representatividade
das minorias, entre outros.
No Brasil, embora seja evidente a evolução pela qual passou o direito do cidadão
com poder de compra, o consumidor ainda convive lado-a-lado com a necessidade de
criação de leis para ensinar as empresas a oferecer o básico, o que se
exemplifica com a criação das novas regras de Serviços de Atendimento de Defesa
do Consumidor (SAC). Mesmo com todos os selos e certificações, e com todo
trabalho de órgãos não governamentais como o Instituto Akatu pelo Consumo
Consciente, o Idec - Instituto Brasileiro de Defesa do Consumidor, não é raro
ver em noticiários indústrias denunciadas por utilizar mão-de-obra escrava e
infantil, poluir, desmatar e sonegar impostos.
Quando o consumidor brasileiro tomar consciência do poder que tem, não haverá
necessidade de leis, decretos ou entidades, para garantir seus direitos.
Empresas que produzem quaisquer tipos de produtos ou serviços sabem que criar
prestígio não é fácil nem barato, principalmente na era da comunicação digital.
Segundo pesquisa da Nielsen, em 2007, 78%dos consumidores já confiavam mais nas
recomendações de outros consumidores. Portanto, as ações da empresa precisam ser
coerentes com o que é comunicado. Não adianta só falar, tem que fazer.