Com as próprias mãos

Por Luiz Fernando Oderich

Para que se dê uma dimensão humana à tragédia de um homicídio, reproduzo o diálogo ocorrido entre uma avó, que perdeu o neto, e uma mãe que perdeu o filho. Preservo os nomes. A avó disse: “minha filha está tão deprimida que pensa em suicídio”, ao que a mãe respondeu: “eu só não me mato porque já morri por dentro...”
Ódio, vingança, raiva, são sentimentos que vivem dentro de nós, reprimimos pela educação e pela lei. Ensinam-nos a não revidar, a deixar que o Estado prenda e julgue por nós. Ele tem os meios e a força para fazer isso, em nome de toda sociedade. Dizem que isso é necessário ao bom convívio social.
No Brasil, no entanto, o Estado parece debochar dos familiares de vítimas. Há um imenso “faz de conta” em todo aparato encarregado de prender e julgar. Não temos segurança. Quando ocorrem problemas, a polícia não consegue identificar os autores dos homicídios em 80% dos casos. Nos 20% que identifica, apenas 3% chegam a algum tipo de punição. Mesmo com índices tão baixos, o ministro da justiça ainda quer modificar a lei dos crimes hediondos. A vida humana parece não ter valor.
Nós, familiares das vítimas, fazemos um grande esforço para nos manter dentro dos limites da lei e da ordem, mas ver o tenente, assassino confesso do jovem Thomás Engel, dar palestras em faculdade de Direito, sobre abordagem policial, é brincar com os nossos sentimentos. Como declarou o pai – é cuspir no caixão do filho!
O Estado brasileiro pode ter certeza de uma coisa: a morte nos enche de tristeza; a impunidade, de raiva. Os familiares procuram justiça. Se não puder ser pela lei votada democraticamente, será pela lei da selva - com as próprias mãos.