Sr. cidadania

Por Reinaldo Nunes*

Em novembro de 1989, acusado de realizar campanha eleitoral para Lula no segundo turno contra Fernando Collor de Melo, fui preso por determinação do juiz eleitoral. Conduzido à antiga Cadeia Pública de Assis de manhã, só consegui votar no final da tarde, na escola Carlos Alberto de Oliveira, escoltado por um policial militar.
Assim que as urnas foram lacradas, por volta das 17 horas, o delegado de plantão me chamou. "Você está em liberdade graças a este homem", referindo-se ao ferroviário aposentado Antônio Francisco de Oliveira, o Nico do Porão, ex-vice-prefeito do saudoso José Santilli Sobrinho.
Nico pagou a fiança para que eu deixasse a cadeia e pudesse me defender em liberdade da acusação de crime eleitoral. Anos depois, fui absolvido e o Estado devolveu o valor da fiança. Levei o cheque ao Nico e ele me disse: "Guarde. Esse é um troféu que merece ser guardado sempre", sugeriu.
Nico era o representante da comissão provisória do Partido Comunista do Brasil, partido aliado à Frente Brasil Popular, liderada por Lula.
Nunca me esqueci do gesto ou deixei de agradecê-lo.
Na semana passada, no último encontro que tivemos, ouvi, entristecido, uma acusação do presidente do Legislativo assisense à postura de Nico: "Você está contaminado por sua ideologia", criticou o legislador.
Calmo, paciente, mas incisivo, Nico não recuou. Não permitiu que a reunião que discutia a renovação de contrato de concessão do serviço de água e esgoto à Sabesp fosse encerrado sem se defender.
Descruzou as pernas, franziu a testa, e retrucou: "Pela ordem, senhor presidente, não admito ser acusado de estar contaminado por minha ideologia. O comunismo já acabou faz tempo. Estou aqui em defesa da cidadania", e continuou, dando um exemplo: "Não acho justo que mais de 600 mil reais sejam retirados de nossa cidade mensalmente e levados para o Paraguai através das compras feitas no Camelódromo, sem que ninguém faça nada. Esse dinheiro poderia ser usado para melhorar a saúde, educação e segurança pública", e justificou: "Estou aqui porque defendo a municipalização do serviço de água e esgoto e não acho justo que esse assunto seja discutido e decidido em quatro paredes, sem participação popular", defendeu-se.
Segundos depois, percebi Nico ser puxado pelo braço pelo prefeito Ézio Spera para uma conversa no canto do plenário. À distância, o prefeito parecia exaltado, fazendo alguma reprimenda ao combativo ferroviário aposentado, que liderou greve de sua categoria no final da década de 60 durante o Regime Militar. Foi a última vez que o vi.
No início da noite de domingo, a triste notícia. "O Nico morreu", dizia um amigo ao telefone.
Nico morreu sem saber o resultado da discussão iniciada por ele sobre a concessão do serviço de água e esgoto, mas levará o reconhecimento público por ter sido o principal responsável pelo cancelamento das obras do presídio de Florínea.
Ele teve a iniciativa, através da consultoria jurídica do advogado Nilton Araújo, de denunciar os danos ambientais que a unidade prisional causaria ao rio Paranapanema. A iniciativa teve acolhida junto ao Ministério Público e a ação prosperou, sepultando o plano de José Serra e do PSDB de construir mais um presídio na região.
Esse mérito ninguém jamais tirará do "Sr. Cidadania", Antonio Francisco de Oliveira, o Nico do Porão.

*Reinaldo Nunes é radialista e editor do Jornal da Segunda