| Enfim, o Plano Nacional contra o crack
Por Archimedes Marques*
Há alguns anos atrás, quando o crack foi introduzido no
Brasil, em especial em São Paulo, seu uso estava
praticamente restrito a classe paupérrima da nossa sociedade
devido ao seu baixo custo de venda, começando assim a sua
trajetória inglória e mortal com os moradores de rua que
eram viciados em álcool, maconha ou em cheirar cola e que
assim viam naquela nova e poderosa droga mais barata e
acessível, a pretensa solução para amenizar os seus
problemas sociais.
Na época as autoridades constituídas viviam as ilusões de
que esse subproduto da cocaína não sairia do consumo dos
mendigos, dos pobres, dos desafortunados e dos desgraçados,
por isso pouco se importavam com a problemática, contudo, o
seu consumo rompeu esse quadrilátero, conquistou as demais
classes sociais, expandindo-se rapidamente, virando uma
epidemia nacional e aí, diante do clamor público, o Estado
passou a correr atrás do prejuízo, embora de maneira tímida.
O crack saiu arrastando multidões em todos os lugares,
fazendo vítimas e mais vitimas em todo canto do País,
aumentando a geometricamente a violência aonde se instalou.
Nos últimos cinco anos o número de usuários dessa droga em
todo o país quase dobrou, passando de 380 mil para 610 mil,
apesar das mortes constantes advindas do crack e pelo crack,
pois se assim não fosse, por certo já teríamos ultrapassado
a casa de um milhão de viciados, devido a sua rápida
proliferação e difícil recuperação curativa.
As crackolandias passaram a ser realidade triste e
deprimente em vários lugares do Brasil. Em diversas
reportagens sentimos até com certo temor e angústia aquele
comércio e uso do crack a céu aberto se proliferar sem
solução.
A crackolandia paulistana, em especial, mostra para o mundo
a sua superioridade negativa superando todas as outras do
Brasil, nunca houve tantos usuários zumbis e pequenos
traficantes por lá. Técnicos a serviço da prefeitura local
estimam que algo como 3 mil a 5 mil pessoas do grupo
perambulem dia e noite naquele polígono de 181 mil metros
quadrados, bem no centro velho da capital.
Cenário de uma cidade bombardeada, a Crackolandia paulistana
de hoje é um território com quarteirões e mais quarteirões,
demolidos em 2008 para dar lugar a um projeto de
revitalização urbana que nem começou a se materializar. Seus
habitantes são meninos e meninas, por vezes grávidas, além
dos adultos, dentre os quais deficientes físicos, que
envelheceram, apodreceram e se transformaram em lixo humano
principalmente pelo uso do crack.
Existe também uma crackolandia em Brasília, a menos de dois
quilômetros do Congresso Nacional, assim como tantas outras
no Rio de Janeiro e nos grandes centros do país. Uma
vergonha nacional que Policia nenhuma dá jeito, pois quando
chegam os policiais logo todos dispensam as drogas no meio
do lixo existente por toda parte para recolhê-las
posteriormente quando das suas saídas.
Correndo contra o tempo o Ministério da Saúde lançou um
remédio paliativo, um Programa emergencial infrutífero em
junho de 2009 colocando em prática investimentos na ordem de
118 milhões de reais até o fim de 2010, entretanto, agora,
de forma mais abrangente o Governo Federal, lançou um Plano
mais condizente na tentativa de conter o avanço do crack e
as suas conseqüências nefastas.
Depois das muitas alertas colocadas pela imprensa nacional,
com matérias e mais matérias nos jornais e revistas escritos
ou virtuais e principalmente pelas centenas de reportagens
televisivas dando conta do horror do crack em nossa
sociedade... Depois das inúmeras campanhas das diversas ONGS
ou entidades diversas, a exemplo do Jornal Mais Brasil que
ganhou apoio de personalidades importantes como Ivete
Sangalo, Claudinha Leite, Roberto Carlos, Zezé di Camargo &
Luciano, Pelé, Chitãozinho e Xororó, Vitor & Leo, Xuxa
Meneghel, Angélica, Bel Marques, KLB, dentre outros que
vestem a camisa e lutam contra as drogas... Depois de muitos
artigos escritos por especialistas no problema dando conta
da necessidade e da urgência de projetos reais e verdadeiros
contra essa droga aniquiladora, aparece enfim, mais do que
na hora, o Plano Nacional de Combate ao Crack.
Na verdade o Governo ignorou o problema. Foi negligente. E
resolveu se corrigir a sete meses do fim, na boca da urna,
se redimindo do seu erro ocorrido durante dois mandatos
eletivos seguidos, mas, como diz o velho ditado: “Antes
tarde do que nunca”, então precisamos dar todo o crédito
possível ao Plano, vez que, acima de tudo, o que está em
jogo é a saúde e a felicidade de muitos e a segurança
pública de tantos outros.
O Governo quer envolver toda a sociedade na luta contra o
crack através de Projeto que investe em prevenção,
capacitação de agentes de saúde e duplicação dos leitos do
SUS para os dependentes da droga. Nesse sentido, como não há
números oficiais divulgados de pessoas à espera por
tratamento em seus devidos lugares, tomando por base uma
matéria jornalística relativa ao Estado de Alagoas que é um
dos menores do Brasil e que possui uma fila de mais de dois
mil dependentes do crack à espera de tratamento, podemos
muito bem observar que a quantidade de pessoas com o mesmo
objetivo em todo o país é imensa, apesar de muitos já terem
alcançado o tratamento em Clínicas e Hospitais particulares
pagos pelo Governo através de ações e decisões judiciais,
pois se entendem ser obrigação estatal tratar assim dos seus
drogados.
Aqui no Estado de Sergipe, o menor da Nação, que tem se
destacado nas ações repressivas contra o crack, tendo
proporcionalmente ficado nas primeiras colocações em termos
de apreensão dessa droga e da prisão de traficantes, possui
31 Centros de Atenção Psicossocial (CAPS) para tratar da
saúde mental do usuário, embora o número de leitos do SUS em
Hospitais especializados ainda esteja indefinido quanto ao
seu alcance, agora também promete investir fundo nas três
áreas principais. Na área curativa mental com o aumento
substancial do atendimento ao drogado e seus familiares, na
área preventiva por via da conscientização social e
educação, inclusive com proposta de se colocar em grade
curricular matéria específica sobre as drogas, além da
divulgação na mídia local, principalmente na imprensa
televisiva, mostrando rápidos filmes exemplificativos e
emocionantes sobre o usuário do crack, e para completar,
continuará com mais rigor ainda com a repressão policial ao
tráfico do produto.
O combate, a prevenção e o tratamento dos seus usuários são
as três palavras chave que emergiram do Decreto
Governamental que instituiu o Plano, assinado pelo chefe da
Nação na tarde do último dia 20 de maio de 2010, e que prevê
ações entre saúde, educação, assistência social e segurança
pública, concomitantemente contra o avanço e conseqüências
advindas do crack.
Uma das frases da fala do Presidente Luis Inácio Lula da
Silva ao assinar o Decreto, demonstra a sua incerteza quanto
a fórmula química do crack que é ainda indefinida: “O crack
é uma coisa nebulosa. Nós já sabemos os efeitos que ele
causa, já sabemos a dureza para quem utiliza o crack. Mas,
cientificamente tem poucos estudos sobre a questão do crack.”
Para muitos o crack é composto somente de cocaína e
bicarbonato de sódio, enquanto que para tantos outros
estudiosos no assunto, absurdamente são adicionados à borra
da cocaína para compor uma fórmula maligna e cruel, a amônia
que é usada na fabricação de produtos de limpeza, o ácido
sulfúrico que é altamente corrosivo e usado em baterias
automotivas, querosene, gasolina ou outro tipo de solvente
que é para dar a combustão ao produto e, para render
aumentando a sua lucratividade, a cal virgem, ou cal viva
que também é tóxica e usada em construções ou plantações,
que ao serem misturados e manipulados se transformam numa
pasta meio endurecida de cor branca caramelizada onde se
concentra mais ou menos 40% a 50% de cocaína que é para dar
o efeito alucinógeno ao seu usuário.
Particularmente e principalmente pelo grande mal físico
causado ao seu dependente, assim como, pelos diversos
depoimentos colhidos em conversa com usuários do crack que
foram unânimes em afirmar que há um cheiro de gasolina ou
querosene na pedra, e quando da fumaça do produto, um forte
cheiro de pneu queimado (a não ser que existam vários tipos
de fabricação do produto), fico, portanto com a segunda
opção que é a mais grave e contundente, conforme demonstra o
caso ser. De todas as minhas pesquisas e estudos sobre o
tema, em todos os meus artigos é dessa fórmula que falo e
não me canso em afirmar os efeitos nefastos causados pelo
crack ao organismo do seu usuário, quais sejam:
O crack causa destruição de neurônios e provoca ao seu
usuário a degeneração dos músculos do seu corpo, conhecida
na medicina como rabdomiólise, o que dá aquela aparência
esquelética ao indivíduo, ou seja, ossos da face salientes,
pernas e braços finos e costelas aparentes.
O usuário do crack pode ter convulsão e como conseqüência
desse fato, pode levá-lo a uma parada respiratória, coma ou
parada cardíaca e enfim, a morte. Além disso, para o
debilitado e esquelético sobrevivente seu declínio físico é
assolador, como infarto, dano cerebral, doença hepática e
pulmonar, hipertensão, acidente vascular cerebral (AVC),
câncer de garganta e traquéia, além da perda dos seus
dentes, pois o ácido sulfúrico que faz parte da composição
química do crack assim trata de furar, corroer e destruir a
sua dentição.
A estratégia governamental a ser posta em prática terá de
imediato disponibilizados R$ 410 milhões em recursos, dentre
os quais, R$ 13 milhões que serão destinados à área curativa
com a duplicação dos leitos existentes e construção de novos
CAPS. Para a questão da prevenção e repressão ao tráfico de
drogas, a pasta do Ministério da Justiça receberá R$ 120
milhões, tendo como uma das metas, a construção de 11 postos
de fronteira com policiais especializados em detectar crimes
de contrabando e tráfico de drogas, embora tal estratégia se
mostre ainda pequena para a quantidade de opções marginais
existentes para a entrada de drogas no nosso país a para o
abastecimento junto aos traficantes.
Em contrapartida o crime organizado continua investindo
pesado do tráfico de drogas. Muita cumplicidade perversa
promove e mantém o crack no seio da nossa sociedade. Tudo
prolifera e floresce com muito arranjo sinistro. As Polícias
Militar, Civil e Federal apesar de todos os esforços
empreendidos, com prisões e apreensões diariamente de muitos
traficantes e de grandes quantidades de crack, não tem
conseguido efetivamente vencer essa guerra.
Aliados a tais medidas governamentais é preciso também da
conscientização popular principalmente na área da educação.
Dentre as formas de prevenir está a questão de se oferecer
atividades escolares extracurriculares que despertem mais
atenção dos estudantes, além de um convívio mais profundo e
dialogado entre alunos com professores, psicólogos e
especialistas, assim como, entre pais e filhos, para enfim,
lutarmos com todas as forças possíveis contra essa epidemia.
Não podemos achar que a polícia e a medicina resolverão os
problemas, que, muitas vezes, se iniciam nos lares, escolas,
festas, shopings center e outros lugares de convivência
social, principalmente dos jovens, mais expostos, por vários
motivos, à atração do mundo das drogas.
*Delegado de Policia. Pós-Graduado em Gestão
Estratégica de Segurança Publica pela Universidade Federal
de Sergipe)
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