Risco ao volante
Enviado por Valmir Dionizio
Uma pesquisa realizada em Belo Horizonte (MG) apresenta um diagnóstico
preocupante na relação entre álcool e direção. Os resultados apontaram que 36,6%
dos entrevistados já se envolveram em acidentes como motoristas. Mais da metade
deles (55,4%) é jovem, entre 18 e 30 anos. Mais de 60% deles têm um padrão de
consumo de álcool de dois dias por semana.
Os entrevistados, mais de 900 condutores de veículos abordados em vias públicas
com grandes concentrações de bares, restaurantes e casas noturnas, têm perfil
socioeconômico elevado.
Cerca de 76,8% deles têm nível superior completo ou incompleto e apresentam
renda familiar superior a oito salários mínimos (73,7%).
O artigo foi publicado na revista Cadernos de Saúde Pública.
Do total de participantes, 63% aceitaram ser submetidos ao teste de bafômetro.
Os resultados apontaram que 19,6% dirigiam com níveis de álcool iguais ou
superiores aos limites legais e 18,4% apresentavam algum índice de álcool no ar
expirado, ou seja, 38% dos condutores dirigiam com algum nível de álcool no
sangue.
Participaram da pesquisa os professores Sérgio Duailibi e Ronaldo Laranjeira, da
Unidade de Pesquisa em Álcool e Drogas (Uniad) da Universidade Federal de São
Paulo (Unifesp), e os pesquisadores Rogério Salgado e Mariela Rocha, da
Secretaria de Desenvolvimento Social de Belo Horizonte.
O psiquiatra Valdir Ribeiro Campos, que atua na secretaria e cursa mestrado na
Uniad, coordenou o estudo.
Segundo Campos, a pesquisa teve um duplo objetivo: fazer um levantamento de
dados sobre a relação entre beber e dirigir numa grande cidade no país e testar
a aplicabilidade e aceitação do bafômetro como instrumento de coleta de dados.
“O propósito era educar e conscientizar a população na relação entre o beber e
dirigir, utilizar o bafômetro como instrumento na coleta de dados e auxiliar na
orientação de políticas públicas que permitam intervenções e que reduzam os
problemas relacionados ao consumo de álcool”, disse Campos à Agência FAPESP.
O levantamento dos dados ocorreu no mês de dezembro, nos anos de 2005 e 2006,
durante as noites de sexta e sábado, entre 22 e 3 horas da madrugada. As
pesquisas sobre acidentes de trânsito em todo o mundo, segundo o autor, têm
apontado que a maioria dos acidentes fatais ocorre na faixa etária dos 21 aos 24
anos e 80% deles no período de 20 às 4 horas da manhã dos fins de semana.
Os pontos de checagem se concentraram na região da Savassi, sul da cidade de
Belo Horizonte. Foram entrevistados 990 condutores de carros, motocicletas e
utilitários. Destes, 913 (92,2%) aceitaram participar em pelo menos uma das
etapas da pesquisa (questionário e bafômetro ativo).
Ações necessárias
Como 55,4% dos entrevistados são jovens entre 18 e 30 anos, Campos acredita que
as campanhas educativas precisam ser direcionadas, principalmente, para esse
público.
“A nossa pesquisa apontou que, entre os jovens nessa faixa etária, um quinto já
se envolveu em acidentes de trânsito, tem um padrão de consumo de álcool de duas
vezes por semana e ingere de duas a três doses de bebidas. Essa quantidade é
suficiente para superar os índices estabelecidos por lei”, afirma o pesquisador.
De acordo com ele, os acidentes de trânsito envolvendo adolescentes que fazem
consumo de álcool aumenta após uma dose de bebida, dobra após duas doses e
aumenta cinco vezes após cinco doses. O limite estabelecido pelo Código de
Trânsito Brasileiro para que uma pessoa seja impedida de dirigir é de 0,6 grama
de álcool por litro sangue.
Outro dado importante é que a maioria dos adolescentes (76,8%) tem curso
superior completo ou incompleto e renda familiar acima de oito salários mínimos
(73,7%). Para confirmar a relação socioeconômica, os testes serão feitos em
outras regiões e em várias cidades do estado.
“Já está em andamento outra pesquisa com a mesma metodologia, que será aplicada
em todas as sete regionais da cidade e nos vários municípios do estado, para que
possamos ter dados mais consistentes sobre a relação entre o nível
socioeconômico e educativo e outros fatores associados ao beber e dirigir”,
explica Campos.
De acordo com o pesquisador, há uma certa conivência da sociedade em relação às
drogas lícitas, como álcool e tabaco. Cinqüenta por cento dos acidentes
automobilísticos fatais que ocorrem no país, diz, estão relacionados ao consumo
de álcool.
“A alta prevalência encontrada neste estudo pode ser, provavelmente, atribuída a
uma fiscalização ineficiente, ao não cumprimento da lei e à falta de uma
política específica voltada para a prevenção de acidentes no trânsito.”
O pesquisador defende que a principal medida a ser tomada é o cumprimento da
lei. A bebida proporciona ao motorista um falso senso de confiança, prejudicando
habilidades como atenção, coordenação, acuidade visual e o julgamento de
velocidade, tempo e distância. Mesmo quantidades pequenas de álcool aumentam as
chances do envolvimento em acidentes.
“Pesquisas permanentes podem levar ao estabelecimento de política de tolerância
zero ao ato de beber e dirigir, como já ocorre em alguns países. As informações
deste estudo podem auxiliar no desenvolvimento de políticas públicas específicas
que permitam intervenções no campo do beber e dirigir, educar e conscientizar a
população sobre a relação entre bebida e direção, melhoria da fiscalização no
trânsito e o cumprimento mais eficaz da lei”, declarou.
Fonte: Agencia Fapesp