Meu primeiro carro
 
Por: Alcindo Garcia
 
Do primeiro carro a gente nunca esquece. As más línguas se referiam a ele como carro-bomba, embora eu só o utilizasse para fins pacíficos. Meu carro tinha 16 anos de uso, portanto estava na adolescência. Compreensível que praticasse algumas travessuras, próprias da idade. Tornou-se alvo dos ambientalistas só porque por onde passava levantava uma nuvem de fumaça preta. De vez em quando emitia explosões pelo escapamento. Quando isso acontecia diante da guarita da Polícia Rodoviária, o guarda assustado, sacava as armas e se colocava em posição defensiva.
Tinha tantas mangueiras no motor que era difícil achar a vareta do óleo. No painel tinha uma bússola desregulada. Ecologicamente correto, trazia um papagaio de plástico colorido, nada brega, dependurado no retrovisor interno. Certa ocasião, em um pequeno solavanco, despencou o pára-choque. Os invejosos passaram a chamá-lo de Leite Ninho, pois diziam que desmanchava sozinho. Não era um carro de segunda mão. Deveria ter passado por uma infinidade de mãos, de tanto que furava mangueiras nas estradas. Cada vez que furava a mangueira, eu mesmo consertava. Tapava com fita crepe, cujo rolo eu guardava no porta-luvas.O conserto era de longa duração. Permitia trafegar por mais uns 30 a 40 quilômetros, até furar de novo.
O porta-mala era automático. Abria sozinho, ao primeiro solavanco. Quando furava a mangueira, esguichava água fervente a uns três metros de altura, fazendo com que os detratores o apelidassem de chafariz ambulante. Os caminhoneiros passavam buzinando de inveja. Seus caminhões não esguichavam água para o alto. Meu carro contava com tecnologia avançadíssima, pois impunha limites a velocidade. Por mais que acionasse o pedal até o fundo não passava de 70.
Era um carro anfíbio, com bom trânsito na chuva. A infiltração de água conduzia o líquido para dentro do porta-malas, onde armazenava entre trinta a quarenta litros, transformando o bagageiro em caixa d’água portátil. Outra virtude do meu primeiro carro: não punha álcool na boca. Só bebia gasolina, mas com moderação, só cinco litros por quilômetro. Bebia menos que os atuais carros Flex, que já saem de fábrica alcoólatras. Bebem adoidados!