As inesquecíveis jabuticabas do Santa Maria

 

Daniel Pereira

 

A moçada de Assis que está na idade sexy, ou chegando lá, ainda deve se lembrar das incursões obrigatórias à chácara do  Garcez. Era  ao lado do Colégio Santa Maria, onde hoje se localiza o Museu da Cidade. Corrijam-me se eu estiver errado.

 

A chácara e o sítio do Misael eram os dois points proibidos que faziam a cabeça da garotada que morava ali pelos lados do buracão da antiga rua Bandeirantes. O sítio do Misael – que também deve ter sucumbido ao progresso – era o paraíso dos meninos coroinhas que saíam batendo matraca pelas ruas na Semana Santa.

 

Naquela época eu não sabia o verdadeiro motivo que levava a turma a desafiar os cães de guarda da chácara ou a enfrentar a espingarda de chumbinho  do vigia noturno. Ah, sim! Ali havia um belo e generoso pomar de jabuticabas.

Logo saberíamos – Ângelo Carmo Belucci, eu e o Evaldo Romagnoli. Uma noite, criamos coragem e lá fomos. Escalamos uma daquelas frondosas jabuticabeiras. Entre uma e outra redondinha, o Carmo (ou terá sido o Evaldo?) finalmente descobriu a atração pela fruta.

 

Dali, onde estávamos empolados, tinha-se uma visão magnífica dos quartos iluminados das meninas internas do Santa Maria. Sorte de principiante é pouco: elas preparavam-se para dormir!  Deslumbrados com  aquela verdadeira aula prática de geografia anatômica e disputando quase a tapa a pole position entre os galhos, quem iria se lembrar de cachorro bravo ou chumbinho de espingarda?

 

Mas, como não há mal que sempre dure, nem bem que nunca se acabe, a alegria daqueles imberbes pivetes esvaiu-se como uma lufada de areia no deserto tão logo ouviram os primeiros latidos e  os passos firmes do vigia. E logo, uma voz tonitroante que não deixava dúvida: “Pega, pega, Zulu!”

 

Não chegaria ao exagero de dizer que fomos mais rápidos do que a velocidade do som. Mas aplicamos com maestria aquela teoria de que “tudo que sobe desce muito mais depressa”. Em poucos segundos estávamos na rua, com o coração saindo pela boca, eu à frente, quando o Evaldo e o Carmo puseram-se a rir sem parar. “Qual é a graça?”, eu quis saber. Só então me dei conta de que, na pressa para descer da jabuticabeira, havia rasgado de alto a baixo a parte traseira da calça.

 

Foi uma noite inesquecível e um dia seguinte ainda melhor, quando o segredo que havíamos prometido não contar a ninguém, havia se espalhado pelo bairro. A aventura teria sido perfeita não fossem o sermão e o puxão de orelhas bem aplicado do padre Câncio, a quem cometi a ingenuidade de revelar a proeza.

 

Daniel Pereira é jornalista e colaborador do umdoistres