De volta (?) ao Coronelismo
Por Daniele Barizon
Sou simplesmente APAIXONADA por Jorge Amado. Me dá arrepios só de falar neste
GIGANTE da literatura brasileira. Prometi a mim mesma que, a qualquer dia,
dedicaria a ele um post. Dedico este. As circunstâncias, no entanto, me levam
não a citá-lo como protagonista, mas como fonte. Este baiano ilustre deixou-nos
diversas obras primas, todas elas repletas de conscientização social e de
preocupação com os principais problemas enfrentados pelo seu estado na época.
Entre tantos, destaco um deles: os mandos e desmandos dos chamados coronéis,
fazendeiros que ditavam as leis nas regiões cacaueiras.
Em Terras do sem fim, os Badaró disputam com Horácio da Silveira, a ferro e
fogo, a posse de ricas propriedades. No centro da guerra, sob a mira da tocaia,
o povo. Em Cacau, humilhar é pouco para Manuel Misael. Na intenção de manter a
ordem, vale inclusive bater em criança, sob a vista dos impotentes pais. Em
Tocaia Grande – meu favorito – uma cidade perece ainda em formação, pela vontade
soberana do herdeiro e novo manda-chuva do pedaço, o folgado Venturinha. Belos
livros, que eu recomendo.
Agora, pausa na ficção. Vamos à realidade:
O fazendeiro Vitalmiro Bastos de Moura, acusada de mandar matar a freira
norte-americana Dorothy Stang, e sobre o qual pesam TODOS os indícios, foi
absolvido, em julgamento, por 5 votos a 2. Tal resultado, tão absurdo quanto
seria, por exemplo, o da inocência do casal Nardoni, é lamentável e vergonhoso.
E nos leva a crer que, para a justiça cumprir seu papel, é necessário que o caso
não só seja incansavelmente veiculado pela mídia – como foi – mas que também
cause comoção pública suficiente para gerar indignação e protestos.
Este, entretanto, não é um fato isolado. Notícias esporádicas sobre violência e
coação por parte de caciques regionais chegam a nós com alguma freqüência.
Determinados locais, aliás, são verdadeiros currais eleitorais.
No mês passado, estive na Bahia – antigo (?) reduto de ACM – para visitar
Salvador. Ainda não conhecia a cidade, e confesso que a expectativa era grande,
dada a sua ligação com meu escritor predileto. Foi no último feriado prolongado,
e achei que encontraria as coisas fervilhando por lá. Me enganei. As praias e
pontos turísticos estavam completamente vazios. Conversando com alguns taxistas
– eles são tão expansivos quanto os cariocas – pude ter uma idéia da opinião por
ali expressa Eles literalmente choravam mágoas, quando justificavam a falta de
turistas. Se o assunto versava para este lado, durante o resto do percurso ouvia
frases como essas:
"Antigamente, quando o prefeito era o Imbassahy (carlista), o Pelourinho vivia
lotado. Agora, é isso que vocês estão vendo. Eu tirava, brincando, R$ 200,00 por
dia. Hoje, difícil tirar R$ 100,00. Mas as coisas vão melhorar. Só o voto dos
descontentes é suficiente para eleger o ACM Neto, e tudo volta ser com era
antes."
Não vou aqui discorrer sobre vantagens e desvantagens de governos ditatoriais,
nepotistas ou tradicionais. Nem fazer apontamentos contra ou a favor da herança
política, ainda tão em voga. Todos sabemos que o tema é dialético. O Brasil, sem
dúvida andou de vento em popa na era Vargas. Alguns antigos – já ouvi
pessoalmente – se gabam do espólio que conseguiram acumular no período da
ditadura militar. Em Salvador, o povo sente falta da influência de ACM. Em
contrapartida, ausência de liberdade de expressão, corrupção, perseguição
política e vítimas, muitas vítimas cujo eco infelizmente não ressoa. Me pergunto
se os habitantes de Anapu estão comemorando a "inocência" do "coronel" Vitalmiro.
Respostas, eu até ensaiei dar. Desisti. Deixo a questão para reflexão de vocês.
Daniele Barizon. Estudante de Jornalismo; Diretora Teatral,
autora das peças Esses e outros 500, Maratona do Caos, Biografia de um sonho
vazado, Como enlouquecer um homem em 10 lições e Cinderela da Silva; Publicou,
pela editora Degrau 2002, a 13ª edição do Manual Prático - tópico Liderança;
Participa do livro Antologia Contos e Crônicas Volume I, do site artimanhas;
Publicações nas páginas de Blocos on line, Texto Livre, Globoonliners e Shvoong.
E-mails: danielebarizon@hotmail.com,danielebarizon@gawab.com