Jornalismo de sobrevivência

 Por: José Benjamim de Lima

A imprensa escrita do interior luta com notórias dificuldades para sobreviver. Num país em que poucos lêem e a maioria não tem condições de assinar jornais, manter um órgão de imprensa em cidades pequenas ou médias não deixa de ser uma proeza digna de elogios.

Diante das dificuldades que enfrenta, a imprensa do interior, via de regra, tende a trabalhar na retranca, por receio de assumir atitudes mais críticas e acabar sofrendo represálias de natureza econômica ou processos judiciais de responsabilidade civil ou até mesmo criminal.

Infelizmente, vivemos num país em que a cultura da tolerância democrática vem perdendo espaço para uma cultura de exageradas susceptibilidades, em que qualquer crítica já é vista como ofensa a ser reparada judicialmente.

Não que jornais e jornalistas, muitas vezes, não abusem e não devam responder pelos excessos. Mas os exageros punitivos, nesse campo, acabam por exercer um papel de intimidação, o que é lastimável, se admitirmos que um dos esteios da democracia é a liberdade de imprensa.

Para sobreviver, muitos jornais acabam sacrificando sua independência, praticando indesejável autocensura, para não perder apoio, sobretudo dos setores mais influentes da cidade, em especial o empresariado e o poder político, dos quais dependem não só economicamente, mas muitas vezes até como fonte de notícias.

Nesse propósito de agradar a quase todos ou, pelo menos, não criar inimigos, o jornalismo de interior cai freqüentemente na mesmice, limitando-se a reproduzir as notícias "oficiais", com pouca ou nenhuma apreciação crítica. Pouco se vê de jornalismo provocativo (no bom sentido), capaz de envolver o leitor e trazer para o debate público, de forma livre, crítica e independente, temas relevantes para a comunidade. Ou de jornalismo investigativo, capaz de buscar além das notícias prontas e das versões oficiais.

Então, ler um jornal (e em Assis temos pelo menos três diários de boa qualidade...) é mais ou menos ler todos: as notícias quase sempre são as mesmas, porque as fontes são as mesmas. Nada errado nisso, uma vez que o fenômeno também ocorre na grande imprensa, tanto a escrita, quanto a de rádio ou televisão: as fontes são as mesmas e por isso são as mesmas as notícias.

Essa realidade, entretanto, não impede (não deve impedir) que cada órgão de imprensa construa o seu próprio diferencial, diferencial que, sem prejuízo do difícil equilíbrio entre liberdade e necessidade, pode estar nas reportagens especiais, nas colunas permanentes, nas entrevistas, nos artigos de opinião, tanto do próprio jornal, quanto de colaboradores.

Apesar das dificuldades notórias, o desafio por um jornalismo plural, mais criativo, mais crítico, mais atuante e investigativo, deve estar permanentemente no horizonte da imprensa interiorana, especialmente numa cidade que tem três universidades e um curso de jornalismo. A imprensa livre, reflexiva e crítica, é indispensável à cidadania.