A toalha de Vinícius

Por: Júlio Cezar Garcia

Sempre que conto causos vividos em Assis, cidade da minha adolescência, enfrento uma reação. "Tudo acontece lá?" Rio-pretense é saudavelmente ciumento. Não é que tudo aconteça "lá". É que guardo com carinho as recordações dali e de todos os lugares por onde andei. Afinal, quem passa 40 anos da vida em uma profissão e não tem histórias para contar deve descer do trem, que está na viagem errada. Como diz o jornalista Alexandre Gama: "Todo mundo tem um pouco de Forrest Gump." A verdade é que com esses causos, vou enrolando a meia-dúzia de leitores que insistem em visitar este espaço nas manhãs de domingo.

Neste ano, em que a bossa nova deixa de ser nova para virar cinqüentona, vem-me à lembrança um show de Vinícius de Morais em Assis, no início dos anos 70.

Assis é uma cidade com boa relação com a música. Passa pela Orquestra Mantovani, dos anos 50, pelo MacRybell dos anos 60. E até pelo saxofonista norte-americano Booker Pittman. Booker morou em Assis. A filha dele, a cantora Eliana Pittman, passou parte da infância em Assis. Booker foi – e quem foi jamais deixará de ser – um dos monstros sagrados do jazz. Eliana fazia jazz com o pai, e ele fazia samba com ela.

Na época do show do Vinícius, por um circuito cultural universitário, eu fazia faculdade de educação física de manhã, e história, na Unesp, à noite. Levei a proposta do show para o diretório acadêmico da Unesp. Eles duvidaram que Vinícius, Toquinho, Marília Medalha e Trio Mocotó se interessassem por um show no sertão de Assis. O diretório da educação física acreditou.

Nas negociações com o empresário, recebemos uma recomendação. "O Vinícius canta sentado. Ele gosta de uma mesinha, com um uísque de boa qualidade e uma longa toalha, que vá até o chão."

O uísque não suscitou dúvida. A fama dele era conhecida. Mas, por que a toalha longa? O empresário explicou. "O Vinícius tem o hábito de ficar passando a mão em suas partes íntimas enquanto canta." As palavras não foram exatamente estas. Foram um pouco mais grosseiras. Uísque bom, o Dudu Piemonte conseguiu rapidamente com o irmão dele, o Teka.

A toalha foi o desafio. Uma amiga, ainda no colegial, mas que freqüentava o diretório, resolveu a parada: "Minha avó tem uma toalha linda em um baú. Ela só não pode saber que vou pegá-la." De fato, era uma obra de arte, com bordados magníficos, imensa, cheia de franjas. Ficou linda na mesinha do Vinícius, que à vontade, acariciava suas intimidades, enquanto cantava.

Depois do show, a amiga recolheu a toalha. O pano que escondia a imoralidade do Poetinha tinha de voltar ao baú, onde ficaria até a Sexta-Feira da Paixão. A avó usava aquela toalha exclusivamente para forrar o altar que erguia na calçada da casa, quando a procissão do Senhor Morto passava por ali. Acho que vamos ter de dar algumas explicações quando batermos à porta lá em cima. Se é que vamos ser recebidos.