A leitora quer me conhecer

Por: Alcindo Garcia

A Ruth Rosa da Costa Faustino, moradora no Jardim Aeroporto, em Cândido Mota, me manda um recado. Além de leitora, me escuta na rádio Voz do Vale e quer me conhecer pessoalmente. Não tenho nada de especial Ruth. Comecei do nada. Desenvolvi rapidamente e em nove meses já estava pronto para nascer. Segundo a família, isso aconteceu pouco depois que estourou a revolução constitucionalista, mas os parentes dizem que uma coisa não teve nada a ver com a outra.

Em números, sempre fui um zero à esquerda. Na infância, só sabia a tabuada do dois. Português sofrível. Cheguei a colocar o nome de Gerúndio no meu cachorro por detestar verbos. O pobre morreu atropelado. Pesquisei meu nome no google. O único Alcindo que eu encontrei lá foi o Alcindo Guanabara, um abolicionista que atazanava a princesa Isabel nos jornais para que ela acabasse com a escravidão. Inconscientemente, passei a escrever e acabei por seguir os passos daquele xará. Comecei escrevendo nas porteiras da Água da Cabiúna. Escrevia anúncios das Casas Pernambucanas. Das porteiras, fui promovido, e passei a escrever em jornais.

No rádio, não passei de um equívoco, Ruth. Fui vender anúncios na transmissão de um páreo de turfe em Cidade Jardim. O locutor da rádio Globo que narrava as corridas, estava sozinho, sem o locutor comercial. Pediu-me para ler os textos nos intervalos. Além dos textos, fui mais ousado. Não entendia nada de cavalos, mas na hora dos palpites, indiquei um cavalo de nome Iraquitã como vencedor do próximo páreo. Venceu de cabeça. A rádio me contratou, desde que eu não falasse mais em turfe. O diretor da emissora sabia que tudo não passou de uma zebra e do meu deslavado oportunismo.

Só tive meus minutos de glória quando fui goleiro do ginásio. No final de uma partida sai carregado em triunfo do campo. Mas logo percebi que era conduzido pelos jogadores do time adversário. Como você vê Ruth, o meu currículo não tem nada de especial. Só tenho uma qualidade, respondo todas as cartas. Mesmo que demore um pouco por falta de tempo. Um abraço.