Torcedores de araque irritam fãs de futebol de 4 em 4 anos 

Contagiados pelo clima, brasileiros que ignoram o esporte grudam na tela durante as copas

Por Cláudia Pinho, do R7*

Cozinheiro Ronaldo: paixão só no Mundial A cada quatro anos, pessoas totalmente alheias ao futebol transformam-se nos maiores torcedores do Brasil. Vestem-se com a camisa da seleção, usam faixas na cabeça, penduram bandeiras no carro e na janela de casa, gritam, sofrem e ainda enchem-se de sabedoria para xingar o juiz e criticar o técnico. Tudo em nome da pátria. Ou das festas que antecedem as partidas e aquelas que acontecem após os jogos. O fenômeno é previsível, mas chega a irritar aqueles que se consideram especialistas no esporte.

Um dos torcedores “amadores” é o designer João Victor Franco, 23 anos. Ele faz parte de uma turma de dez amigos que, em toda Copa do Mundo, reúne-se para assistir os jogos em bares ou na casa de um deles. Todos devidamente caracterizados para a ocasião, com camisas, bonés, apitos e bandeiras. O problema é que, ao contrário dos amigos, ele mal sabe a escalação do time de Dunga.

- Eu não acompanho futebol, tenho preguiça, não gosto. Desde pequeno eu digo que torço para o São Paulo para não ficar por fora. Na Copa, me envolvo mais pela comoção geral, mas não sou daqueles que dão palpites. Eu fico quieto no meu canto, até porque, nem sei o que palpitar.

João não está sozinho. O jornalista Rafael Almeida Freire, 23 anos, e sua namorada, a estudante Ana Carolina Lima, 20 anos, também fazem parte do grupo de torcedores de ocasião. Ele conta que, quando criança, acompanhava o time do São Paulo, mas que hoje, mal sabe os nomes dos jogadores. “Só sei que o Rogério Ceni é o goleiro”.

Rafael não gosta do clima de rivalidade entre os clubes e, muito menos, dos programas que discutem as jogadas depois de cada partida. “Acho uma besteira, aqueles caras ficam a semana toda falando sobre o mesmo assunto”.

Se durante o ano ele não se envolve em futebol, a situação muda de figura quando o Brasil entra em campo. Rafael gosta de torcer em família e ao lado da namorada que, segundo ele, “entende um pouquinho mais de futebol do que eu”. Ele não chega a vestir a camisa amarela, mas dá os seus palpites.

- Nos jogos da eliminatória, todos da minha família reclamavam das minhas opiniões, porque sabem que eu não entendo nada.

O editor de livros Rafael Elias Teixeira, 27 anos, costuma dedicar parte do seu tempo, antes do início dos jogos da Copa, para dar uma estudada nos times. Ele garante que até entende um pouco as regras do futebol, mas está longe de ser um apaixonado pelo esporte. Nem mesmo pelo seu time, o Corinthians.

- Eu não tenho ideia em que campeonato meu time está competindo, não sei os resultados e muito menos a escalação. Mas me interesso um pouco pela Seleção Brasileira. Analiso as chaves, os possíveis adversários do Brasil e assisto aos jogos.

Mesmo sem usar a camisa da seleção, Rafael costuma se reunir na casa de amigos e “dar muitos palpites nas jogadas. Até brigo com a televisão”.

E, se para alguns, os jogos do Brasil na Copa do Mundo são pretextos para baladas, pouco importa saber o que é escanteio, falta ou pênalti. É nisso que acredita o cozinheiro Ronaldo Schüler, 35 anos. Com um pai torcedor fanático do Palmeiras, e um irmão são-paulino roxo, ele diz que é corintiano, mas nem imagina os nomes dos jogadores. Nunca foi a um estádio e nem assiste jogos pela televisão.

- Sou uma negação em futebol. Quando estou em turma, costumo dizer que torço para o XV de Jaú, assim não tem briga. Mas nos jogos da Copa é diferente, fico animado pelas festas. Só não entro em discussões na hora do jogo, assim não falo besteira.

“Especialistas” incomodados

Essa proliferação de novos torcedores é o pesadelo dos aficionados por futebol, aqueles que assistem até a jogos do campeonato japonês. Muitos ficam irritados, discutem, brigam, outros evitam acompanhar as partidas ao lado desses palpiteiros. Um dos incomodados é o gerente comercial Bruno Galdino Santana, 27 anos. Fã de futebol, ele entende de esquema tático, vai a jogos do Corinthians no estádio e assiste, sempre que possível, a todos os jogos transmitidos na televisão.

- Eu adoro futebol e gosto de torcer pelo Brasil, apesar de o Dunga não merecer. Acho muito chato ficar ao lado de quem não entende nada e acha que pode dar palpite. Por isso, evito assistir em bares, pois fico muito irritado. Demonstro minha irritação, mas não brigo. Acho que não vale à pena.

O publicitário Henrique César Ribeiro, 22 anos, é mais radical. Ele assiste a todos os jogos - de todos os times -, grava aqueles que não consegue acompanhar e afirma que é “fanático por Copa do Mundo. Torço e sofro muito com a seleção”. E, assim como Bruno, evita a companhia desses torcedores temporários.

- Eles ficam pentelhando, nem sabem o que o jogador está fazendo em campo e acham que podem palpitar. Não estão interessados em assistir, só querem causar tumulto. Por isso, costumo torcer em casa, junto com o meu pai e o meu primo.

Portanto, se você não sabe nada de futebol e pensa em torcer pelo Brasil em algum lugar público, certifique-se que ao seu lado não tenha nenhum fanático entendido do assunto. Caso contrário, você corre o risco de levar um cartão vermelho.

*http://www.r7.com/