ENTERRADO VIVO

Por Ronaldo Duran*

Não foi por falta de gritar. Nem sei como consegui tirar o algodão da boca, do nariz. Do contrário seria impossível achar fôlego para reagir. Quem sabe a magreza tenha ajudado. Literalmente estou exprimido. A simples visão do esquife é de desmaiar os que têm fobia por espaço fechado. Imagina enfiado nele, com sete palmos de terra por cima? Juro que voltei a mim logo que a primeira pá de terra caiu sobre o ataúde. Se naquele momento tivesse tino, usaria toda a energia para fazer barulho. Provável que algum choroso lá em cima pudesse estranhar os sons atípicos.
Nessas horas que me arrependo de não ter sido sepultado nas caixas. Sei, elas são reservadas para os pobres, os que não tem jazigo de família e em três anos terão que ceder espaço para outros igualmente mal acolhidos pela sorte. Até nisso, ser de classe média me prejudicou.
O susto descomunal. Dentro da cova. A escuridão total. As mãos me guiando. Muitas pétalas, rosas, envolvendo meu corpo. E que vontade de fazer xixi. Desagüei. Que incômodo. Contudo, mantive-me firme na tentativa insana de abrir o caixão. Todas as forças nas mãos, e nos pés. Que féretro solidamente vedado. Ainda que tivesse aberto o caixão, que diria das camadas intransponíveis de terra acima?
O que teria me acontecido? Lembro-me é de estar berrando como de costume lá na Bovespa. Depois veio a escuridão. Tudo bem que o trabalho na bolsa de valores estressa. Mas sou supercalmo. Muitos dos meus gritos são mais cálculos do que reação instintiva. Um poço de paciência, dizem os colegas.
Tudo bem que a morte não escolhe hora para bater à nossa porta e nos convidar para partir, sob pena de nos arrastar pelos cabelos se nos recusarmos a segui-la de boa vontade. Mas eu, tão novo! Agora que tinha achado o amor de minha vida. Que ia começar a dar uma pensão para minha mãe, cumprindo a promessa sempre adiada do tempo de menino. Entre mim e a realização desses sonhos há a tampa pesada do ataúde e um bocado de terra indiferente.
O ar rarefeito. Os sentidos falhando. Chorei desesperado. Rezei dezenas de pai nossos e avemarias, eu ateu roxo desde os vinte anos. Quem sabe se eu procurar dormir... A morte não deve ser tão ruim. Minha avó morreu, e muitos outros que eu admirava. Talvez o desconhecido é que assuste. Mas quem sabe a morte seja um sono bom, um descanso oportuno... A cabeça embaralha as idéias. A tosse me perturba. Os sentidos fraquejam. A força que vai sumindo, sumindo, sumindo... Valeu vida. Ganhei menos do que eu desejava, e mais do que merecia. A razão vai sumindo, sumindo, sumindo...


* Ronaldo Duran, escritor, colabora neste espaço. www.facebook.com