| Criador e criaturas
Por Wilmar Marçal*
A população do Paraná, sobretudo a do norte, aguarda e
confia no trabalho da Polícia Federal que, em conjunto com a
Receita Federal e Controladoria-Geral da União investigam o
Centro Integrado de Apoio Profissional (Ciap), sediado em
Londrina, e os desdobramentos de desvios vultosos de
recursos públicos.
A atuação batizada de "Operação Parceria" mais uma vez
demonstra que a corrupção no País é diretamente proporcional
ao caos da saúde pública. Muito embora hajam recursos
advindos do Ministério do Trabalho e Emprego, a parte
estratégica do desvio está relacionada aos convênios
firmados com o
Ministério da Saúde.
Esta é a razão pela qual "esses ladrões" não querem que o
País tenha qualidade de serviços na saúde pública. É um
ritual anual de caracterizar a necessidade para depois
desviar o dinheiro.
Enquanto houver caos, sempre haverá lobistas em Brasília
abocanhando o recurso com a desculpa de investir na saúde.
Esta tônica tem sido assim há vários anos e o sistema está
cada vez pior.
O desvio, roubo, ou seja lá o nome que se dê a essa
safadeza, retrata a ganância dos maus gestores para com o
dinheiro público e demonstra que o esquema é bem elaborado
na penumbra dos gabinetes.
Ainda permanecem sem resposta quem são os mentores
intelectuais da liberação do recurso lá de Brasília. Quem é
o criador do esquema? Quem são as criaturas coparticipantes?
Por que se permitiu que se descredenciasse o Programa Saúde
da Família na Santa Casa de Londrina e outros hospitais
sérios e o transferisse para o Ciap? Quem explica o
excessivo aumento dos valores pagos aos procedimentos
imediatamente após o programa passar a ser executado pelo
Ciap?
Alegam os hipócritas que a lei é muito burocrática e que
processos licitatórios são demorados. Alegam ainda que, se
não for com agilidade de aquisição, mortes poderão ocorrer
no sistema público de saúde.
Assim, com essa retórica mentirosa e pouco convincente, vão
perpetuando o esquema do roubo. Ora, a lei existe exatamente
para evitar esse tipo de pessoa administrando o dinheiro
público.
Disfarçar a agilidade de ação e melhorar o fluxo de serviços
através de entidades como o Ciap significa o falso discurso
do "salvar vidas", expressão repetida por muitos políticos,
sobretudo em campanhas eleitorais.
Passam-se os anos, injetam-se mais recursos e os problemas
só aumentam em proporções geométricas. É assim mesmo que os
"vampiros" gostam de atuar. Quanto mais problemas na saúde,
maior a probabilidade do desvio e do roubo.
A pergunta que não pode calar: quem é o criador? Quem são as
criaturas? De que gabinete saiu o pedido e a respectiva
liberação? Quem são os parlamentares envolvidos nessa "causa
humanitária"? Será que realmente teremos respostas e nomes,
ou mais uma vez vamos assistir à velha desculpa parafraseada
por alguns: "eu não sabia" ou "eu não sei de nada", ou ainda
"eu só falo em juízo"? Esta situação vergonhosa precisa ser
vigilantemente observada e informada pela imprensa, para que
se evite que mais pessoas continuem morrendo pela
mirabolante estratégia do mal, criada pelos "demônios" que
se dizem representantes do povo e, lamentavelmente, são
sempre reeleitos.
*Wilmar Marçal / Professor universitário e
ex-reitor da Universidade Estadual de Londrina (UEL) -Pr /
Brasil
contato: e-mail - wilmar_pr2010@hotmail.com |