A ARCA DE NÃO É
Por Luiz Bosco Sardinha Machado
No correr dos tempos, o homem já foi produto do meio, este já foi resultado
da intervenção daquele, mas o homem continuou tão contraditório, que nem se
conseguiu chegar a um acordo sobre isso. Tanto assim, que mudou-se a dialética,
o papo-furado para ser mais explícito, rotulando-se o indivíduo como produto da
mídia. Como toda mercadoria tem um rótulo, o cidadão passou a ser a essência do
que consome. Como tudo o que o homem consome tem um limite, presta e dura pelo
menos até o dia seguinte, surgiu a dificuldade natural de acompanhar-se essa
vertiginosa mutação, criando-se, então, uma realidade virtual, que de palpável
não tem nada e que surge a um simples clique do mouse do computador ou pela
força da mídia. A realidade virtual é uma ferramenta do consumeirismo e está
sendo largamente utilizada para vender bens, produtos e o que é pior, idéias e
até para manipular convicções. Isto ficou claro na eleição de Barack Obama nos
Estados Unidos. Em países como o Brasil, a coisa se acentua pois um presidente
consegue por seis ou sete anos transmitir algo que tem muito de ficção e pouco
do que na verdade se vê. Nos Estados Unidos, não, o presidente consegue mesclar
a realidade virtual a um pragmático senso de responsabilidade real, que lhe dá
credibilidade. No nosso caso não há essa preocupação, pois a maioria da
população é mais facilmente manipulável pelas ações de marketing. Temos recebido
cartas de leitores que influenciados pela cantilena ufanista do governo,
curiosamente absolvem o presidente, transferindo os absurdos cometidos pelo
governo Lula aos partidos da base aliada, principalmente PTB e PMDB.
Explicitamente, como ocorreu na eleição para a presidência da Comissão de
Infra-estrutura do Senado de Fernando Collor e posteriormente na CPI da
Petrobras, onde o Partido dos Trabalhadores, que teoricamente está no poder,
teve que submeter-se aos partidos satélites. O mesmo teria ocorrido na MP da
grilagem que teria nascido nas mãos do “cumpanhero” Lula, por obra e graça da
pressão dos ruralistas e sofrido forte rejeição dentro do PT, que exige a sua
revogação. Os leitores que assim manifestaram-se, talvez tenham uma dose de
razão e se assim é verdade, o isolamento de Lula e de seus apoiadores de ora em
diante, será cada vez maior. Inclusive nas hostes petistas. O fisiologismo, a
distribuição de cargos, favores e benesses. além de ter um limite, implicam em
prejuízo aos interesses de outros e conciliá-los é tarefa que não depende só de
papo, mister no qual o ex-dirigente sindical é expert. É preciso muito mais. Na
“Arca de Não É” que virou o governo Lula, onde todo mundo pretende ser mas não
é, a própria indicação de Dilma Roussef, como postulante ao cargo máximo da
Nação, ao invés de resolver, trouxe mais divergências entre os aliados que foram
convidados a continuar sendo coadjuvantes para uma derrota que parece
inexorável. Como rei posto, rei morto, as insondáveis pretensões do Sr. Lula da
Silva para o futuro só ele sabe e conhece, ficando então um tremendo ponto de
interrogação. A única coisa que se tem certeza é que ele não pretende a
presidência da Petrobras, um dos melhores empregos do mundo, com a vantagem de
não precisar prestar contas a ninguém, mas que é muito pouco para um
ex-presidente. Provavelmente, o Sr Lula deverá vestir um tranqüilo pijama da
aposentadoria, (mais uma!) maldizendo o dia em que acreditou no marketing e em
fisiológicos aliados.