Relatos de um ser sem
brilho
Por: Júlio Cezar Garcia
Das duas dúzias de
pessoas que me lêem neste espaço, suponho que meia-dúzia deva se lembrar da
toalha que "furtamos por empréstimo" para pôr sobre a mesinha de Vinícius de
Moraes em um show que ele, Toquinho, Marília Medalha e Trio Mocotó fizeram em
minha cidade. Hospedamos a trupe na fazenda do então deputado federal Santilli
Sobrinho, que era da minha cidade. Santilli era um político respeitável. Desses
que fazem falta. Não dos que, ao morrer, suscitam a frase que li no Pasquim:
"Essa ausência vai preencher uma grande lacuna." Voltando aos artistas, eles
gostaram da fazenda e resolveram ficar um dia a mais. Acabamos promovendo um
rachão de futebol no gramado em frente à sede da fazenda. Vinícius, sempre com o
copo de uísque à mão, só assistia. Na época, estava casado com Gesse, aquela
baiana que a gente observava de longe e suspirava: "Que Deus a conserve e não
nos desampare." Eu olhava para eles com olhos de fã. Já era repórter, juvenil,
foca, mas não senti necessidade de entrevistá-los. Apenas fazia relatos da
rotina deles na fazenda. Na verdade, o empresário havia pedido para a gente
evitar entrevistas. Mas o editor do jornal insistia:
- Pega uma exclusiva para nós.
Eu me retraía. Exclusiva? Sobre o
quê? Haveria alguma novidade? O que é entrevista exclusiva numa cidade com
um único jornal?
Creio que o Poetinha gostou do
sossego e daquela molecada que havia promovido um show com tanto sucesso no
sertão do Paranapanema.
Comentei com Gesse a exigência do
jornal a respeito de uma novidade exclusiva. Ela riu. Com um sinal discreto,
por trás do poeta, me chamou:
- Peça ao Toquinho que cante a música
dos vícios. Ninguém publicou.
Os amigos do poeta, nos anos 60, no
Rio de Janeiro, haviam criado uma musiquinha para "homenageá-lo", quando
chegava aos bares.
Depois do rachão, falei com Toquinho.
Ele pegou o violão e cantou, com a melodia da canção infantil "Se esta rua
fosse minha".
"Se eu tivesse
Se eu tivesse muitos vícios
O meu nome
O meu nome era Vinícius."
Todos riram.Vinícius balançou a
cabeça com falso desdém. Toquinho continuou:
"Se meus vícios
fossem muito imorais
eu seria Vinícius de Morais."
Nunca soube se a "homenagem" dos
amigos no Rio era verdadeira ou se Toquinho a tinha inventado ali. Dias
atrás, 36 anos depois, uma colega me emprestou o DVD "Vinícius", e nele
está, em uma cena quase no final, a atriz Tonya Carrero a repetir a história
e a cantar a mesma musiquinha dos vícios imorais. Ela fazia parte, nos anos
60, do grupo de amigos que provocavam o poeta com aquela cantiga. Lembro-me
dessas passagens com uma emoção tola, infantil, como se tê-las vivido me
fizesse ser parte da biografia do poeta. Besteiras de quem não tem brilho
próprio.
Júlio Cezar Garcia é repórter
especial do Diário da Região de Rio Preto e fundador do Jornal da Segunda de
Assis