Presentes do passado
Por Daniel
Pereira
Outro dia perpetrei aqui
neste espaço uma ode ao passado e pelo menos um suspeito que a leu (Eureca! Há
quem leia tais bobagens!) teve a delicadeza de ligar para solidarizar-se comigo
por esses arroubos de saudosismo. “Escreva mais, faz um bem danado para o
espírito e resgata as melhores coisas que ficaram lá atrás”, disse-me o amigo
que não me permitiu revelar seu nome.
De fato, sou um saudosista
inveterado. Radical. Chato, até. Mas não um museu. Noves fora o que as novas
tecnologias podem nos propiciar de útil, de resto não vejo hoje nada mais
interessante do que o que tivemos/vivemos nos velhos tempos.
E nem falemos de ética,
respeito ao próximo, cidadania, disciplina e responsabilidade. Nos tempos
modernos essas terminologias são produto escasso, como bem o demonstram as
notícias diárias sobre as atividades e o comportamento dos políticos
tupiniquins.
Pergunto: quem, entre os
coroas de hoje, não se sente privilegiado por ter sido aluno de mestres
como Pimpa, Maria Cândida, Yolanda Yared, Leila, Circe, Osvaldo Trevisan,
Nicanor Luciano Gomes, Toninho, Horácio Tucunduva, Godinho, os Pedros
(Mercadante e D’Arcádia), para ficar apenas naqueles que a memória consegue
registrar agora?
Sim, naqueles tempos o
professor era chamado de mestre. Mais do que isso: ele se sentia mestre. Era uma
época em que o pai ou a mãe mandava o filho para a escola e não tinha com o que
se preocupar, a não ser ajudá-lo com as lições de casa. Até por que, na escola
também tinham como cúmplices os anjos da guarda, caras como o Silvestre,
o Renato, seo Luis D’Arcádia – tão durões quanto paternalistas, mas
justos.
E se o passado é a memória
do presente, por que ter vergonha de evocá-lo? É que somos hipócritas – coisa da
natureza humana. As pessoas não gostam de se lembrar de fatos ou passagens
desagradáveis. Algumas até mesmo criam uma espécie de bloqueio subliminar para
apagar o registro de algo que tenham considerado como episódio negativo ou
vergonhoso..
Nesse contexto está aquela
besteira de que as pessoas tendem a se lembrar com maior clareza do passado
remoto do que de fatos recentes. Um mito. O que acontece, na minha modesta
opinião, é algo muito simples. O ser humano tem memória seletiva, embora a
maioria nem se dê conta disso. Assim, optam por trazer à luz apenas o lado
agradável e colorido desse indecifrável labirinto que é a mente.
A vida é curta. Por isso,
o importante é fazer a média ponderada entre o positivo e o negativo de tudo o
que ela nos oferece. Boa ou má, qualquer experiência deixa lições. E são elas
que sedimentam a estrada do amanhã. Para o bem ou para o mal. Você decide. É o
tal do livre arbítrio. Então, por que não abrir de quando em vez o baú do tempo?
Desabafe! Extravase! Recupere e atualize aquele velho diário. Enfim, solte a
franga e seja bem-vindo (a).
Daniel
Pereira é Jornalista e colaborador do umdoistres -
daniel07pereira@yahoo.com.br