Cuide do seu carro e dê carona à saúde
Por César Kurt - Saúde. Abril.UOL
Pó, papéis, restos de comida, pêlos de cachorro... Mais do que mero
desleixo, a sujeira dentro do veículo pode ser um risco e tanto, sobretudo para
os alérgicos.
Se a descrição acima aplica-se direitinho ao seu automóvel, trate de mandá-lo ao
lava - rápido mais próximo. Um estudo da Universidade Federal de Uberlândia
(UFU), em Minas Gerais, mostrou que essa imundície toda é capaz de disparar uma
baita crise alérgica nos passageiros mais suscetíveis. No levantamento, liderado
pelo imunologista Ernesto Taketomi, 60 veículos particulares tiveram amostras
coletadas e, pasme, mais da metade continha quantidades acima do admissível de
substâncias nocivas ao sistema respiratório. Entre os principais achados estavam
os pêlos de cães ou gatos que sobram nos assentos e no carpete. Eles contêm uma
espécie de proteína alergênica que dispara a pronta reação do sistema
imunológico. Em pessoas sensíveis, essa resposta é exagerada. E aí, para
combater os invasores, as defesas liberam a imunoglobina E, chamada de IgE, que
desencadeia de rinite e conjuntivite até uma crise de asma.
E mesmo quem não convive com bichos está sujeito ao problema. Basta rodar com
alguém que tenha animais em casa e os pêlos vão de carona. “O efeito é
exatamente o mesmo”, explica Ernesto Taketomi. Mas não é só a pelagem de pets
que provoca espirros durante o passeio. Os ácaros — aracnídeos invisíveis a olho
nu — também são agentes alergênicos que, transportados pelas roupas e até pelos
cabelos, se proliferam dentro do automóvel. Pior: eles se alimentam de escamas
da pele humana que se acumulam por lá. Ou seja, além de moradia, seu carro é um
belo restaurante para esses seres microscópicos. Pensa que a lista de
malfeitores acabou? Pois tem mais. Os fungos, atraídos pela umidade provocada
pelo ar-condicionado, também se sentem pra lá de confortáveis no interior do
veículo. “Além de causarem alergias por si sós, eles servem de alimento para os
ácaros. Ou seja, onde há um deles muito provavelmente a gente encontra outro”,
completa Fábio Morato Castro, imunologista da Universidade de São Paulo.
A poluição de ruas, estradas e avenidas pode dar aquele empurrãozinho na direção
de uma crise. E ela fica impregnada no automóvel inteiro, até mesmo na lataria.
Por isso, os alérgicos não devem fazer a lavagem pessoalmente, já que o
desprendimento dessa fuligem costuma ir sem escala para o nariz.
Os gases poluentes também são responsáveis por muitas doenças respiratórias.
Assim, faça o que estiver ao seu alcance para reduzi-los. Uma das medidas é
manter o motor em forma, isto é, bem regulado. “Isso ajuda a diminuir a emissão
de produtos da queima incompleta do combustível”, analisa Paulo Saldiva, chefe
do Laboratório de Poluição Atmosférica da Faculdade de Medicina da Universidade
de São Paulo.
A melhor maneira de cuidar do motor é seguir as orientações do bom e velho
manual. Além disso, acompanhe o rendimento do automóvel. Se decair, é porque
algo está errado — e quem sofre somos todos nós, que respiramos o ar sujo.
Também não se esqueça de abastecer em um posto acima de qualquer suspeita de
vender combustíveis adulterados. “Manter os pneus calibrados é outra providência
importante. Quando um deles está mais baixo do que deveria, gera mais atrito com
o solo, o que eleva o gasto de combustível e piora a emissão de gases”,
complementa Maurício Ferreira, professor de engenharia mecânica da Fundação
Educacional Inaciana, a FEI.
Observe ainda o catalisador. Responsável por transformar parte das substâncias
tóxicas em poluentes menos perigosos, ele perde eficiência se tiver ultrapassado
os 80 mil quilômetros de uso ou se for atingido por pedras. Finalmente, fique
sabendo que o modo de dirigir também conta. Evite aceleradas bruscas
desnecessárias e, se possível, fuja dos horários de congestionamento. Tudo por
uma atmosfera mais saudável.
TRANSPORTE PERFEITO
À espreita, diversos agentes causadores de alergia encontram no carro o melhor
lugar para se instalar
PÊLOS DE CÃO E GATO: eles são alérgenos de respeito. Então, depois do passeio
levando animais a bordo, limpe bem os bancos e o carpete.
FILTRO DO AR-CONDICIONADO: responsável por barrar poluentes, precisa de
manutenção para ficar livre de fuligem e fungos. Especialistas sugerem uma
limpeza a cada seis meses. Outra coisa: o equipamento é responsável por um gasto
extra de gasolina, que, por sua vez, libera poluentes na atmosfera. Então, seja
um cidadão consciente e só ligue o aparelho quando precisar pra valer.
DERMATITES: a pele é uma vítima das proteínas alergênicas. Nesse caso, a
resposta do sistema imunológico, causada pelo contato dos microorganismos com a
epiderme, leva à dermatite atópica, ou eczema, aquelas erupções avermelhadas que
coçam sem parar.
VIAS RESPIRATÓRIAS: quando inalados, fungos, ácaros e pêlos podem acionar
anticorpos que, apesar de em princípio terem sido programados para proteger o
corpo, causam irritações alérgicas, de conjuntivite a asma.
ASSENTOS E CARPETE: a superfície irregular, cheia de fiapos, serve como abrigo
ideal para os ácaros. Misturados na poeira, eles começam a se reproduzir e aí
não faltarão olhos vermelhos e coceiras.
COMIDAS E CINZEIRO: aquele resto de sanduíche no lixo ou no banco, para os menos
cuidadosos é um banquete para os ácaros e outros bichos. As partículas de cinza,
por sua vez, irritam as vias respiratórias, principalmente as dos asmáticos.
DÊ UMA FREADA NA SUJEIRA
Pequenas atitudes são capazes de grandes efeitos em prol de um ar mais limpo,
dentro e fora do carro.
ESVAZIE OS SACOS DE LIXO: muitos imaginam que jogar na lixeirinha interna os
salgadinhos esparramados no banco e deixá-la lá dentro por dias a fio! É o
suficiente. Engano. Restos de comida são um prato cheio para microorganismos e
até baratas. Sem contar que os ácaros também apreciam muito a papelada que você
nem se lembra de recolher. A ordem é: ao sair do carro, retire todo e qualquer
detrito.
TÊM CHEIRO BOM, MAS...
Os sprays aromatizantes estão longe de ser eficientes na limpeza do automóvel.
“E, pior que isso, são um pesadelo para quem é sensível ao seu cheiro”, explica
Oliver Nascimento, pneumologista da Unifesp. “Para muitos, o odor não faz mal
nenhum, mas os alérgicos a perfumes fortes podem ter uma rinite em um simples
passeio”, assegura. Esses produtos afetam mais aquelas pessoas que estão em
plena crise alérgica ou que se recuperam de uma doença respiratória.
TRANSPORTE PÚBLICO DE... ÁCAROS
Ônibus, vans escolares e táxis, que conduzem muita gente, viram grandes
reservatórios de ácaros. O que fazer? Em vez de cair na tentação de tirar o
carro da garagem olha a saúde do planeta! Use o transporte público, mas evite os
horários de pico ou, se isso for impossível, fique próximo das janelas. Ah, os
coletivos com bancos de plástico, apesar de menos confortáveis, definitivamente
não são os queridinhos dos microorganismos.