A Alta Do Preço De Alimentos!
Por Murilo Prado Badaró
O preço da comida é preocupação mundial!
A inflação agrícola está sendo chamada de "Agflação", novo termo incorporado na
economia, vem gerando distúrbio social em diversos países e preocupando os
consumidores. Até a ONU já vislumbra medidas para tentar conter a alta de preço
que gera mais desequilíbrios sociais nos países mais pobres.
A China e a Índia dentro do ciclo virtuoso da economia desde a década de 90 são
responsáveis em parte pelo aumento da demanda. A melhora de renda suscita mais
consumo de alimentos e isso vem acontecendo nestes dois países que concentram um
terço da população mundial.
A alta dos preços nos alimentos é embasada em diversas causas e não só no
aumento da renda e da demanda pelos países emergentes e populosos.
O mercado futuro, fundos de "hedges", criado para proteger o mercado está de
certa forma desvirtuando este próprio mercado. As safras de soja chegam a girar
22 vezes anuais. Em 2007, o mercado futuro de Chicago, a Meca das commodities,
negociou 7,3 bilhões de toneladas de milho, 4,3 bilhões de soja e 2,7 bilhões de
trigo. A produção física desses produtos, em 2007, foi de 780 milhões, 220
milhões e 606 milhões de toneladas. A especulação extrapola a proteção original
aos produtores e compradores, essência destes fundos.
O alto preço do petróleo é atribuído também ao mercado futuro e segundo alguns
especialistas, a produção encontra-se vendida ao mercado por muito tempo, não
pertencendo mais aos produtores. A volatilidade associada a liquidez fazem os
preços subirem sempre empurradas pela prosperidade mundial com o aumento da
demanda, resultado: Aumento de preços.
O equilíbrio entre a oferta e a demanda que deveriam regular os preços é coisa
do passado, temos as componentes novas dos mercados futuros e fundos de "hedge".
Outros agravantes acabam ajudando esta alta de preços. Os investimentos na
agricultura, tecnologia e produtividade agrícola vem caindo. O banco Mundial
emprestou 7,7 bilhões de dólares em 1980 para agricultura, em 2004, emprestou
somente 2 bilhões de dólares.
A urbanização é crescente em todos os países, a mão de obra escassa no campo é
sobrecarga no problema. Investimentos e modernização são necessários para manter
a produção, estes demandam recursos vultosos e restringem ainda mais a produção
de alguns grãos e culturas.
O aumento da população é outro fator intensificador. As áreas mais afetadas,
países africanos principalmente, com problemas crônicos se complicam ainda mais.
Hoje somos 6,7 bilhões de pessoas, a projeção para 2030 é que seremos 8,1
bilhões. Para atender somente este aumento populacional, sem contar aqui com
fator de aumento per capita de alimentação por melhoria da renda, precisaremos
aumentar a produção mundial de soja e milho em 15%.
A alimentação com a carne aumentada pela renda coloca o milho e soja, base da
ração animal, em situação de aquecimento, pela ração e pela alimentação em
humana em si, mais gasolina na fogueira dos preços.
Nem tudo, porém parece perdido, o caso brasileiro é exemplo de que o problema é
contornável.
Aqui no Brasil de 1990 até 2007 tivemos um aumento de produtividade de 85% na
agricultura. Saímos de 38 milhões de toneladas de grãos produzidos em 90, para
138 milhões em 2007. No mesmo período a área cultivada saiu de 38 milhões de
hectares para 46.
Temos área suficiente para atender a demanda mundial de alimentos e os
biocombustíveis ao mesmo tempo. A área total do Brasil são 856 milhões de
hectares, deste total somente 7,3% (62 milhões de hectares) são culturas. As
pastagens que poderiam ceder de certa forma área para agricultura, correspondem
a 26%, ou 220 milhões de hectares e ainda temos pelo menos 100 milhões de
hectares (13%) disponíveis para agricultura. Não será por causa de área ou
vocação que teremos agravado o problema, o Brasil tem muito a colaborar.
Esta história midiática de que existe concorrência do bicombustível com os
alimentos pode ser aplicada no caso do etanol americano que usa o milho e recebe
pesados subsídios governamentais. Para países africanos, os biocombustíveis
podem ser a redenção, lá existem áreas e mão de obra, faltam tecnologia e
recursos para investimentos.
Se a tecnologia aliada a investimentos conseguir transferir os avanços
conseguidos, é tranqüila a situação e as projeções. Para que isso ocorra será
necessária ação de organismos internacionais como a ONU e sua FAO e o Banco
Mundial para financiar e apoiar este transferência tecnológica e de vocação.
O mundo experimentou um grande intercâmbio de culturas, grãos, sementes e
alimentos, desde a pré-história, porque não seria possível isso agora?
É preocupante outro fato que caminha paralelo ao aumento da demanda das
commodities e da população: o lixo e os desperdícios em momento de disparidades
e escassez. A fome é a raiz do problema, mas vários outros seguem na mesma rota.
O já preocupante problema do aquecimento global deve ser lenha na fogueira da
alta dos preços agrícolas.
A prosperidade mundial retira muitos excluídos sociais da miséria, mas o aumento
de preço de alimentos joga outros tantos na mesma penúria. A geração de emprego
e renda é saudável, mas o meio ambiente e a justiça social devem ser baluartes
da sustentabilidade desta fartura global.
Vamos aprender com a crise que já se avizinhou, a alta de alimentos é mais um
sinal. Os combustíveis já estão em ponto de alerta máximo e podem trazer graves
problemas para muitos países, inclusive sobrecarregando a questão da inflação
das commodities e conseqüentemente dos alimentos.
Estamos aprendendo muito com as crises, desde 1929 para cá. A era do
conhecimento e a sociedade da informação nos dá condições de administrar os
percalços da humanidade, mas é sempre bom contar com nossas aliadas, a pesquisa,
a ciência e a tecnologia. Uma mistura de políticas públicas responsáveis,
consciência e tecnologia, vão amenizar o problema e diminuir as injustiças
sociais que a fome e falta de alimentos geram.
Murilo Prado Badaró: Economista, empresário e estudante
formando em Gestão Ambiental. Tenho artigos publicados em sites e jornais do
Brasil e trabalhos apresentados em vários congressos do setor energético.