| O BRASILEIRO BEBE DIFERENTE
Por Ronaldo Laranjeira
Não existe uma tradição no Brasil de pesquisa sobre o
comportamento do beber, apesar de o álcool representar cerca
de 8% das mortes, causar mais de 50% das mortes no trânsito
e ser responsável por mais de 80% da violência doméstica. É
por isso que acaba prevalecendo a impressão subjetiva de
cada um. Uma das maiores influências sobre a subjetividade é
a propaganda de cerveja, que quer retratar o consumo do
álcool como a norma de toda a sociedade brasileira. É por
isso que ouvimos com frequência: o que pode haver de mal em
beber? Todo mundo bebe um pouquinho.
No entanto, as pesquisas revelam um mundo diferente daquele
retratado pelas agências de propaganda das cervejarias. Pela
primeira vez, a Universidade Federal de São Paulo (Unifesp)
realizou um estudo que descreve o perfil de consumo do
brasileiro. Utilizou um tipo de metodologia que selecionou
uma amostra de 3.005 pessoas escolhidas ao acaso, o q ue
permite que os dados realmente representem o que ocorre no
Brasil. O primeiro dado que chamou a atenção foi o de que
48% da população brasileira não bebe (35% dos homens e 63%
das mulheres). Esse dado derruba a impressão de que somos um
país de bebedores. E a grande proporção de abstêmios
brasileiros contrasta muito com o que acontece na Europa,
onde apenas 10% da população não bebe.
Em contraposição 24% dos brasileiros bebem excessivamente e
representam o grupo responsável pelo custo social do álcool.
Esse grupo consome mais de 80% de todo o álcool no Brasil e
é o responsável pelas doenças e violência causadas pela
cerveja. Vale a pena responsabilizar a cerveja pelo custo
social do álcool no Brasil, pois cerca de 70% de todo o
consumo é feito dessa forma.
Destruir o senso comum e contribuir para uma melhor forma de
ver a realidade é uma das tarefas mais nobres da ciência.
Essa pesquisa fornece informações que deverão facilitar a
cri ação de políticas públicas para diminuir o custo social
do álcool. Mas, infelizmente, o Ministério da Saúde não tem
ouvido o clamor dos dados. Ainda está numa fase oscilando
entre a passividade e ações sem planejamento. O desafio é
utilizar pesquisas para nos guiar em ações estruturais para
proteger a sociedade dos interesses dos únicos que se
beneficiam do álcool, a indústria de cerveja.
A Organização Mundial da Saúde (OMS) está tentando fazer com
o álcool algo semelhante ao que foi feito com o tabaco:
criar uma política mundial visando a ações com impacto na
saúde pública. As principais medidas são: aumento do preço,
diminuição do acesso às bebidas, especialmente para os
adolescentes, proibição da propaganda do álcool e controle
rigoroso do beber e dirigir. Esperemos que o próximo governo
ouça mais a OMS do que as cervejarias. |