Frases e seus contextos 

Por: Júlio Cezar Garcia 

Certas frases e seus contextos ficam gravados. Algumas são propositalmente produzidas para chamar a atenção, convencer, vender. Outras, simplesmente, são produtos do acaso, da ironia ou do descuido. Como as atribuídas ao ex-presidente do Corinthians, Vicente Matheus, titular de um espírito simplório, franco, sem auto-censura. Matheus entrou para o anedotário brasileiro como autor de frases memoráveis. Algumas, de fato, foram produzidas pela sua espontaneidade descuidada. Mas, a maioria, foi falsamente atribuída a ele. As verdadeiras eram: "Quem está na chuva é para se queimar." "O difícil não é fácil." "Tive uma infantilidade muito pobre, muito triste." "De gole em gole, a galinha enche o papo." "Peço aos corintianos que compareçam à eleição para naufragar a nossa chapa." Entre as falsamente atribuídas a ele, a mais repetida é: "Isso é uma faca de dois legumes." E, quando um time europeu quis comprar o meia-direita Sócrates, do Corinthians e da Seleção, o presidente teria respondido: "O Sócrates é invendável." Então, o clube pediu o jogador por empréstimo. Matheus lascou: "O Sócrates é imprestável." Outra célebre, mas que o dirigente não disse: "Agradeço à Antártica pelas Brahmas que mandou à nossa festa."
Em São José do Rio Preto residem autores criativos. O jornalista Wilson Guilherme, por exemplo, quando duvida da sinceridade de alguém, dispara a ironia. "É imparcial como um gandula." E o médico José Raymundo Veneziano, ex-vereador, tem duas, fortes: "Fuja de mulher que não se dá bem com os pais. Se ela é assim até com eles, como será com você?" A outra do Veneziano: "Fuja de mulher que mata baratas. Se ela não precisa do homem nem para isso, vai precisar para quê?"
Cícero Afonso, repórter policial de Presidente Prudente, também improvisava tiradas ao vivo. Certa vez, num barzinho instalado em um vagão de trem perto da Unoeste, a Universidade do Oeste Paulista, ele pediu uma porção de fritas. O pedido não chegava nunca. Meia-hora depois, quando o garçom trazia mais uma cerveja, ainda sem o tira-gosto, Cícero perguntou, educadamente:
- O rapaz ao qual pedi uma porção de fritas ainda trabalha na casa?
Meu colega revisor de textos da Editora Abril, nos anos 70, Carlos Eduardo de Carvalho, baiano de Salvador e torcedor fanático do Esporte Clube Bahia, foi à missa com uma tia velha. Em dado momento, os fiéis cantaram o antigo hino católico que diz: "Vitória, tu reinarás, ó cruz, tu nos salvarás." Carlos encarou a tia: "E o hino do Bahia, não vão cantar não?" Vitória é o nome do maior rival do Bahia. Em Rio Preto, na avenida Benedito Rodrigues Lisboa, no bairro Vivendas, há um condomínio de sobradinhos à venda. Em frente à entrada, a incorporadora fixou um outdoor com a imagem de uma família feliz, ao lado da mensagem: "Viva bem perto de tudo o que você gosta." Não é uma frase no mínimo intrigante para um condomínio em frente ao Cemitério Jardim da Paz?