Desculpe-nos...
Matamos seu filho...pai...marido...sogra...
Por: Pedro Cardoso da Costa
Quando criança, na fase das briguinhas com colegas, a gente se sente de alma
lavada quando pede e recebe ou quando concede desculpa ao ofensor, geralmente
por uma bolachada bem merecida. Trata-se de uma demonstração de arrependimento,
por considerar o seu semelhante mais importante de que sua vingança pessoal.
As fases da vida e a posição não tiram dos humanos sua capacidade de reconhecer
erros. Só que não se pode banalizá-los confiantes no posterior pedido de
desculpa. Na Administração Pública também é assim.
Os governos americanos banalizaram o pedido de desculpa por seus atos de horror,
indesculpáveis na maioria. Tornou-se um clichê. Quase sempre copiadoras das
coisas ruins americanas, as autoridades brasileiras passaram a usar o pedido de
desculpa como único ato administrativo de reparação por grosserias, atuação
perniciosa e por crimes gravíssimos praticados por seus agentes.
No final de 2007 seis policiais militares, Gerson Gonzaga da Silva, Emerson
Ferreira, Ricardo Ottaviani, Maurício Augusto Delasta e Juliano Arcângelo Bonini,
chefiados pelo tenente Roger Marcel Vitiver Soares de Souza invadiram a casa de
Carlos Rodrigues Junior, em Bauru, interior de São Paulo, sem, e mesmo que fosse
com ordem judicial, e o mataram trancafiados num quarto, na presença da mãe e da
irmã, que nada puderam fazer a não ser ouvir gemidos de um ente querido até a
morte.
No Pará uma adolescente de treze anos foi trancafiada com mais de vinte homens
numa delegacia. Juizado, promotoria, delegacia, todo mundo tinha conhecimento e
nenhum fez alguma coisa para impedir que ela ficasse um mês sendo estuprada,
seviciada, queimada. Em Goiás, uma delinqüente empresária e sua empregada
arrancavam pedaços da língua de uma criança com alicate e outras torturas dessa
natureza. No Rio de Janeiro, alguns facínoras do Exército deram a vida de um
jovem de presentinho a traficantes. E no mesmo Rio a Polícia Militar, frise-se,
em "revide", matou João Roberto Amorim, uma criança de três anos, como se fosse
um assassino perigoso. Depois, bem em seguida, mataram o engenheiro. E tantos
outros.
Tão simples quanto esses atos bárbaros foram praticados por todos esses
bandidos, a principal medida tomada pelas autoridades envolvidas: um pedido de
desculpa. Passou da hora da sociedade presentear alguém com essas autoridades. O
leitor poderia sugerir a quem. Depois, é só pedir desculpa.
Pedro Cardoso da Costa – Interlagos/SP - Bel. Direito