A humanidade sempre buscou o
desenvolvimento e com ele uma melhor qualidade de vida. Os inventos serviram
para facilitar o trabalho e reservar mais horas de lazer. Embora se tenha
atingido um nível relativamente alto de conhecimento teórico e prático, esta
evolução trouxe também muitas conseqüências negativas.
Quando o alemão Carl Benz inaugurou
seu veículo motorizado, em 1885, a gasolina era comprada na farmácia e todos
ficaram eufóricos. Esta alegria dura até hoje, quando se observa que, para
muitos, o carro é o maior sonho de consumo. Ninguém poderia imaginar,
entretanto, o que isto significaria para o planeta. Só agora, quando se
compra gasolina em qualquer esquina, perto da escola ou do supermercado,
quando a média de carros por pessoas beira o absurdo de 2,5, quando o
aquecimento global é um fato, quando as catástrofes ambientais, em forma de
tornados, enchentes, calor excessivo ou secas duradouras na Amazônia, estão
estampadas em todos os meios jornalísticos do mundo, o homem começa a
perceber o preço do prazer de andar de carro. Carl Benz teria vergonha de
seu invento?
O fato é que o carro existe e foi
feito para andar. Continua sendo o sonho de consumo da maioria das pessoas.
É um luxo que se populariza e segue, no mundo inteiro, queimando as reservas
de combustíveis fósseis, contribuindo para o aquecimento do planeta e para o
esgotamento de uma forma de energia antes pensada como infinita. Neste ritmo
de desenvolvimento, o ser humano precisa de outras matrizes energéticas e os
biocombustíveis ressurgem como panacéia.
No entanto, basta um olhar mais
atento para descobrir que esta solução traz enormes conseqüências para a
humanidade. A tentativa de substituir o combustível fóssil por alternativas
renováveis trouxe problemas cruciais, como, por exemplo, a necessidade de
proteger o solo, a água, a biodiversidade e a própria humanidade.
Inaugurou-se de vez a polêmica mundial: produzir biocombustível ou
alimentos?
Embora não haja dúvida quanto à
necessidade de produzir alimentos, pois ainda há muita gente passando fome,
produzir combustíveis alternativos ganhou simpatia no mundo todo. No Brasil,
há décadas se anda de carro a álcool e esta opção, aparentemente menos
agressiva ao meio ambiente, causa inveja em muitos países. Mas desde o
recente fomento do governo brasileiro para produção de biocombustíveis
(álcool, biodiesel e derivados), o tema ganhou debate internacional e foi
fortemente criticado como sendo um dos responsáveis pela alta mundial no
preço dos alimentos.
A crise mundial pela falta de
alimentos não é recente. Também não é de hoje a produção de biocombustíveis.
O fato de países emergentes receberem grandes investimentos em produção de
álcool não altera substancialmente a crise. Vai continuar faltando mais e
mais alimentos, assim como mais e mais combustíveis. As reservas fósseis
estão no limite. Quase não há mais rios para hidrelétricas. Energia nuclear
tornou-se a maior aberração da humanidade. Então, que os países emergentes
produzam mais biocombustíveis, afinal têm extensas áreas e isto não afeta a
produção de alimentos diretamente.
Pior do que trocar alimentos por
biocombustíveis é a maneira como se produz esta nova matriz energética. No
Brasil, o Estado de São Paulo, o mais rico da nação, orgulha-se de sua
"diversidade agrícola": praticamente um imenso canavial, pois outras
culturas quase não existem mais e, quando existem, ainda assim são
monoculturas de laranja e eucalipto. Extensas áreas de produção de trigo,
soja e milho de outrora são engolidas pelos canaviais. As poucas árvores que
resistiram de uma floresta nativa são removidas, soterradas ou queimadas.
Planta-se cana de açúcar geneticamente modificada, jogam-se resíduos
industriais na terra, aplicam-se pesticidas poderosos com conseqüências
desastrosas para o meio ambiente. Para facilitar a colheita, ainda que
proibido pela legislação ambiental, coloca-se fogo em volta da plantação,
impedindo que qualquer tipo de vida sobreviva. Bichos em extinção como
onças, tatus e tamanduás morrem queimados. Os canaviais sob fogo intenso,
dia e noite. Ultimamente, só à noite, quando todos estão fechados em suas
casas. Na manhã seguinte, as imensas nuvens de fumaça já se dispersaram com
o vento e tem-se a impressão de ar puro novamente. Então chegam os
trabalhadores rurais para o corte da cana. Tentam se proteger de todo modo,
pois a folha da cana e o facão podem causar graves ferimentos. Ao final do
dia, estão sujos, cheios de carvão, exaustos e respiraram cinza o dia
inteiro.
O método de produção do
biocombustível é ainda pouco conhecido nos seus detalhes, mas inegavelmente
tão prejudicial ao meio ambiente quanto a emissão dos gases poluentes dos
derivados do petróleo. Biocombustível somado à necessidade de crescimento
econômico a qualquer custo, apoiado pelo capital internacional especulativo,
não parece tão BIO assim.