Presente de Natal

Por  Daniel Pereira*

A Sé é uma das mais movimentadas estações do Metrô de São Paulo. Disso todo mundo sabe. Naquele dia, véspera do Natal, estava pelo gogó. Nenhuma novidade, também. Os trens transportavam apressados atrasados: homens já antecipadamente embriagados pela ilusão da data, tropeçando nas enormes cestas natalinas daquelas do tipo Amaral – lembram dela? -, mulheres trôpegas com gigantescos pacotes de presentes, suando por todas as bicas, crianças cambaleantes e impacientes – enfim, gente saindo pelo ladrão, uma zona.

O inferno sobre trilhos vinha da Barra Funda. A duras penas escapei, aliviado, não sem antes conferir se estava tudo no lugar. Desço a escada rolante na expectativa de enfrentar outra maratona. Eu também estava com pressa por que iria molhar as palavras com algumas pessoas antes de chegar em casa.

Ainda meio aturdido pela batalha dos espaços no vagão anterior, custei a acreditar: bem à minha frente, como se estivesse pendurada em uma coluna, aquele monumento à majestade feminina. Olhei para os lados, procurando o destinatário daquele sorriso 45. Nada. A escada rolante não rolava, parecia ter parado no tempo, não chegava nunca ao piso da plataforma. E ela lá, me desafiando com seu olhar penetrante.

Só pode ser um sonho. Pior, um pesadelo. Queria me lembrar de onde conhecia aquele rosto. Dei os primeiros passos para chegar à plataforma na tentativa de voltar rapidamente à realidade. Virei o rosto para trás e para os lados, imaginando que havia conseguido escapar mas...quá! Ela não desgrudava aqueles olhões de jabuticaba de cima de mim. O que mais me impressionava é que ela não mexia os olhos, não alterava o jeito de sorrir, sequer saia do lugar.

No entanto, para onde eu fosse, lá estava ela me fulminando. Como num big brother. E o trem não vinha. Já ameaçava a me convencer de que a mocinha tinha mesmo encasquetado comigo. O que será que um mulherão daqueles poderia querer com um sujeito como eu? Decidi encará-la. E foi aí que comecei a pirar de vez: a morenaça estava de biquíni! No metrô! Deve ser um truque, pensei. Alguma mágica mirabolante importada pelos marqueteiros do Serra.

O solavanco do trem me salvou. Acordei bem a tempo de sair do vagão na minha estação. Fui ao encontro do pessoal jurando nunca mais pedir presentes de Natal impossíveis. Mas fiquei embatucado: por que o sonho maluco com tantos capítulos em pouco tempo de viagem da Sé até Santana?

Disposto a buscar respostas fiz um flasback ao ponto de partida dessa estória. Mesmo trajeto, da Barra Funda à Sé. Dessa vez, tranqüilo. Mesma escada rolante. E, eureka! Lá estava ela. Esbelta e maravilhosa, como no sonho. De biquíni, sim. Ela, na verdade, era o pôster digitalizado de uma conhecida atriz de TV fazendo propaganda de um novo desodorante. Bingo! Caiu a ficha. Saí do metrô e fui correndo procurar uma farmácia para comprar o tal desodorante.


*Daniel Pereira é jornalista em São Paulo e colaborador do umdoistres - daniel07pereira@yahoo.com.br