| Democracia em perigo?
Por Rinaldo Barros*
“O sono da razão gera monstros” (Antonio Gramsci)
Logo após o reinado de momo de 2010 serão abertas
campanhas eleitorais em todos os Estados ao longo do patropi
e, também, no Congresso Nacional. Não será apenas mais uma
legislatura, 54 senadores estão com seus mandatos em risco.
Estamos assistindo aos primeiros clarões da alvorada de uma
nova era política em terras crioulas.
Com a mundialização da economia, com o advento do Mercosul,
com a nova geopolítica internacional (o mundo multipolar),
com eleições em todos os Estados brasileiros, com a crise na
economia estadunidense ainda renitente, necessariamente
teremos uma nova realidade política no Brasil, em toda
América Latina e Caribe, como de resto em todo o planeta.
Nossos governantes e parlamentares, assim como, todos os
homens de boa vontade, estamos obrigados a repensar o nosso
tempo. Senão, vejamos.
É palpável a evanescência de muitos outrora importantes
movimentos sociais (como o de mulheres, por exemplo). É
visível o declínio da força do sindicalismo, como
conseqüência do novo padrão de acumulação do sistema e do
desaparecimento de postos de trabalho e profissões, por
força da automação.
Preocupa-me também a tentativa governamental de censurar ou
desqualificar o papel da imprensa, em meio a generalizada
sensação de impunidade.
É igualmente muito preocupante a despolitização das novas
gerações, às voltas com um individualismo estéril, terreno
fértil e perigoso para as manipulações de todos os tipos.
Nosso sistema educacional nem de longe está preparado para
orientar nossa juventude nos caminhos da vida, nossos
professores estão ainda em busca da compreensão acerca dessa
novíssima realidade e, lamentavelmente, ainda sem o
indispensável apoio conceitual.
Nossos mestres estão desarmados em pleno campo de batalha,
uma loucura sem igual.
Ninguém está preparado ainda para lidar com essa novíssima
realidade. Trata-se de uma série de especificidades, eivada
de ambigüidades, tecendo uma rede complexa e fragmentada de
novos conceitos e novos paradigmas, a qual vai se
redefinindo junto a cada movimento do real, a uma velocidade
alucinante.
No contexto local, o lulismo levou o País ao retrocesso
político e moral ao não punir e até incentivar a corrupção
com o dinheiro público, ao lotear cargos técnicos com
apadrinhados despreparados e mal-intencionados, ao
interferir politicamente em funções do Estado que existem
para servir ao cidadão, e não aos interesses do governo. E
não fez as reformas fundamentais para a modernização da
sociedade.
Todavia, é forçoso reconhecer os méritos do governo atual: a
economia cresceu e milhares de novos empregos foram criados,
a área social ganhou impulso, e surpreendentemente o País
saiu da crise antes do esperado. Em que pese a desigualdade
social ainda inaceitável e o câmbio atrapalhar as
exportações, o futuro econômico do Brasil é promissor e o
governo Lula ajudou a construí-lo; a partir da sábia
manutenção da política econômica do governo anterior e da
preservação do Plano Real, criado em 1994.
Entretanto, tudo se passa como se o presidente Lula houvesse
descoberto uma forma de agir como ditador fingindo estar
numa Democracia. Com a aprovação de 72 por cento da
população.
Por falar nisso, acho muito estranho quando vejo a
quantidade de "medidas provisórias" editadas, melhor,
ditadas pelo governo federal; temos a impressão de que o
nosso sistema democrático é uma fraude. Que democracia é
esta em que a maioria das leis é feita pelo Executivo e não
pelo Legislativo?
O governo Lula mantém a pauta trancada com as tais "medidas
provisórias" que acabam virando leis definitivas. É o
Legislativo deixando de legislar para apenas referendar as
leis impostas pelo Executivo.
É preocupante também a omissão de sucessivos governos civis,
de Sarney a Lula, em relação à formação dos militares
brasileiros; o que tem garantido a perpetuação, quase
intacta, da doutrina de segurança nacional dentro dos
quartéis.
A meu ver, trata-se de uma lógica histórica perversa que se
alimenta de factóides e interpretações de má fé, como essa
de que, ao instituir uma Comissão Nacional da Verdade, o
governo Lula pretende rever a Lei de Anistia, de 1979. Falo
do Plano Nacional de Direitos Humanos - PNDH-3, que cria a
"Comissão da Verdade" para apurar torturas e
desaparecimentos durante o regime militar (1964-1985); o
qual deixou o presidente Lula numa saia justa tal que o
levou a afirmar que teria assinado sem ler, prometendo que o
texto seria alterado. Abre-se um debate perigoso.
Quem estaria querendo jogar a opinião pública contra as
forças armadas: Lula ou sua candidata a sucessão? O que
realmente está por trás dessa revisão, em ano eleitoral?
Seria mais uma pedra no quebra-cabeça da “revolução
bolivariana”, do novo cenário político para a América
Latina? Será o inicio da fórmula da “pós-democracia”
(superação da democracia representativa), sob o lema: "o
povo vota para legitimar o poder do caudilho”?
Será que a frágil Democracia latino-americana está correndo
perigo de novo retrocesso?
A dedução é privilégio do caro leitor.
*Rinaldo Barros é professor da Universidade
do Estado do Rio Grande do Norte, desde 1988. Está
participando como convidado do Programa de Pós-doutorado da
Unidad de Estudios en Desarrollo da Universidad Autónoma de
Zacatecas - UAZ, no México, com o projeto Políticas Públicas
para a Ciência e Tecnologia: as nanotecnologias no Brasil.
Atualmente, ocupa a Diretoria Científica da FAPERN –
Fundação de Apoio à Pesquisa do Rio Grande do Norte, onde
busca contribuir para que a disseminação do conhecimento
científico e a prática da pesquisa se tornem mecanismos de
desenvolvimento do Rio Grande do Norte. |