2010: Ano das tragédias?
Por Neri P. Carneiro*
Chuvas tempestuosas, enchentes, deslizamentos de
encostas, terremotos, tsunamis, tornados, até uma epidemia
de dengue já se instalou... Isso sem falar do aumento da
criminalidade, acidentes de trânsito... Muitas mortes... e
para matar muito mais, nos últimos tempos o aquecimento
global caminha contra nós!
Essa pode ser a descrição de um retrato deste inicio de
2010, o ano que conclui a primeira década do século 21.
A partir deste retrato, algumas pessoas – mal intencionadas
ou com pouca reflexão – começam a falar em prenúncios de fim
do mundo, apocalipse, Armageddon... Propagandeiam que está
se aproximando o dia do juízo ou do julgamento final.
Não nos esqueçamos que na virada do milênio também se
alastraram comentários catastróficos sobre o cataclismo
final. Invocava-se a afirmação de que "a mil chegará, de
dois mil não passará", como se isso fosse da Bíblia. Mas
passamos... sobrevivemos... e hoje comentamos outros
desastres naturais, ambientais e humanos...
Tudo isso seria o final dos tempos? Seriam os tais sinais do
fim? Você acredita nisso? Acredita que todas essas
catástrofes e tragédias sejam prenúncios do fim? Ou tudo
isso não passa de versões de uma mesma tragédia anunciada?
Você é sensato e já terá percebido o que tudo isso
representa: processos da mecânica da natureza ou situações
provocadas pela ação humana, portanto não tem nada de
apocalíptico, nem de fim do mundo nem qualquer outra
baboseira que lhe queiram impingir.
Alguém, no entanto, pode argumentar: Mas o aquecimento
global não pode provocar grandes desequilíbrios ambientais e
a extinção do ser humano?
Essa é uma afirmação parcialmente verdadeira. O aquecimento
global pode, sim, provocar grandes desequilíbrios ambientais
– aliás, está provocando a maioria dos atuais desastres
ambientais – e com isso muitas mortes. Entretanto isso nada
mais é do que conseqüência da ação humana e não podemos nos
esquecer de que ao longo da história da humanidade não foram
poucas as situações adversas pelas quais passou o planeta...
e nenhuma dessas hecatombes extingui a humanidade. Muitos
morreram – e em virtude do aquecimento global já estão
morrendo e muitos mais morrerão – mas a espécie humana
sempre soube se adaptar às adversidades. Aliás, foi
justamente essa capacidade de adaptação que nos permitiu
sobreviver e nos permite sermos diferentes dos demais
animais. Muitas espécies se extinguiram porque não souberam
se adaptar. Portanto, dos humanos sobrarão alguns para
contar a história – ou recomeçá-la.
Agora pensemos um pouco: No Brasil, nos últimos anos, temos
visto muitas notícias a respeito de muitos desastres. E,
neste 2010, as catástrofes se avolumaram, como dissemos nas
primeiras linhas: Chuvas tempestuosas, enchentes,
deslizamentos de encostas, terremotos, tsunamis, tornados.
Note que: nenhum desses fenômenos naturais pode ser evitados
pelos humanos – os homens podem apenas evitar ser vítima.
Apenas a epidemia de dengue – que já se instalou – pode ser
evitada. Para isso basta todos fazerem a limpeza de seus
quintais...
Em relação aos fenômenos naturais, o problema está no fato
de que, atualmente, eles estão atingindo, com violência, o
ser humano. Por que o ser humano está sendo atingido por
esses fenômenos? Perdemos a capacidade de adaptação?
Não. A questão é que estamos criando condições para que os
fenômenos naturais nos atinjam. Estamos provocando o aumento
da temperatura do planeta e isso interfere no clima e assim
ocorrem as várias tempestades e outros fenômenos... e, como
estamos fazendo nossas habitações em locais fragilizados
pela natureza, a conseqüência é que a natureza segue seu
rumo, atropelando quem está na sua frente. Acontece que
devido ao aumento populacional, à crescente urbanização, e
outras conquistas da modernidade, nossa sociedade está na
frente da natureza.
Então, porque as tragédias estão marcando o início deste
2010?
Porque não estamos sendo capazes de aprender com as
experiências. Em 1999, Galtur, uma cidadezinha turística na
parte alpina da Áustria, considerada livre de avalanches,
foi atingida por quase 200 toneladas de neve. A uma
velocidade de 418 km/h, em menos de um minuto, a avalanche
soterrou a cidade: 31 mortos, muitos feridos e muita
destruição. Mas a cidade sobrevivia do turismo. E não
ficaria bem perdê-los. A solução foi investir em novas
pesquisas, reestruturar a arquitetura das construções,
aplicar em segurança e fazer propaganda para, novamente
atrair turistas. Quer dizer, lá eles tiraram lições da
tragédia
Mas nós o que fazemos: as vítimas ficam esperando as
migalhas das esmolas do governo, de pessoas e órgãos de
solidariedade; os políticos, por sua vez, aproveitam
oportunidades como essas para faturar mais votos. E as
lições?
Portanto, 2010 não é um ano de tragédias, mas um ano como os
demais com lições a serem aprendidas pelos inteligentes
ou... continuar fazendo papel de vítimas.
*Neri de Paula Carneiro – Mestre em Educação,
Filósofo, Teólogo, Historiador |
|