Racismo: São Paulo Fala.
Por Bernard Gontier
Cartas selecionadas da campanha cultural 120 Anos de Abolição – Racismo: se você
não fala, quem vai falar?
Doze milhões e meio de pessoas, cerca de 31% da população do estado de São Paulo
são negras, pardas, ou, se preferir, afro-brasileiras. Venho de um tempo em que
o último termo não existia, embora os comportamentos daninhos à “categoria”
persistam em resistir, a despeito da suposta elegância dos novos termos. O termo
em questão está expresso no título. E dentre milhares de cartas selecionaram
120, pois neste ano comemorou-se os 120 anos de Abolição da Escravatura no
Brasil. Cada carta é o retrato mal passado da doença da imbecilidade de uns para
fustigar o já encarniçado sofrimento alheio. Um sofrimento que encontra de bate
- pronto a palavra exclusão, espécie de tarja que já vem com a certidão de
nascimento. Imbecilidade, porque só mesmo um imbecil recusa um emprego, um
aceno, um prato de comida, um gesto obrigatório de cidadania – como por exemplo
o assento reservado para idosos, e até mesmo a própria existência, pelo simples
fato da pele da pessoa ser parda, ou negra.
São Paulo de fato fala, através de um trabalho de excelência, com a participação
da Secretaria da Cultura e da Associação Amigos das Oficinas Culturais do Estado
de São Paulo, dentre outros parceiros.
Duzentas páginas em papel pólen bold e projeto de gráfico de Kiko Farkas, o
livro é um convite para se cantarolar um rap que ainda não foi feito, cujo autor
ainda não existe, mas o refrão está na boca de todo mundo com um mínimo de bom
senso: “Cai na real, animal, pois isso não é legal”.
Enquanto o rap não vem, pois o que vem nessa forma age como um espelho,
transbordando mais ódio e racismo, temos a Dra. Isildinha Batista Nogueira, nos
dizendo que “o racismo é feito da ignorância e o ódio é um elemento da
ignorância. As pessoas não tem o hábito de pensar, por que é que elas optam por
uma coisa e não por outra. Por que optaram por um modo de pensar ou por um modo
de ser. Nenhum racista sabe explicar porque é racista. O motor fundamental do
racismo é a ignorância”.
Desnecessário falar mais, mas no livro tem mais, tem palavras certeiras de muita
gente, inclusive do mais que correto Emanoel Araújo, hoje Curador do Museu
AfroBrasil, ex-Secretário da Cultura, cabeça pensante neste arraial de
analfabetos práticos, sabem ler e sabem escrever, mas praticam ambas as artes no
Orkut, na revista Faces e nos anúncios de liquidação.
Enquanto isso, temos Alex Borges da Cruz, 26 anos, SP/SP, expressando que,
quando apresentou a namorada para o pai, no portão de casa, este primeiro disse
que não estava vendo ninguém ali, e depois dirigiu-se a ela e, com toda a
deselegância que Deus não lhe deu, disse: tome vergonha na cara, vai procurar
alguém do seu nível.
A carta de Alex é uma dentre as 120. Os coordenadores do trabalho atestam: “Os
relatos percorreram os caminhos da realidade. Selecionar 120 cartas em um
turbilhão de registros é tão ou mais difícil do que promover políticas
afirmativas em um país onde a cor da pele estabelece o lugar da pessoa”.
Enquanto as pessoas pensam que seus lugares estão dentro dos paramentos que
inventaram para si mesmas, em detrimento de tudo aquilo que não lhes concerne,
afinal só enxergam o próprio umbigo paramentado, livros como esse tentam
resgatar algumas consciências, dar vazão à outras, e enriquecer uns poucos com
uma preciosidade denominada sabedoria, que, segundo se sussurra nas alcovas, só
é conquistada através de muita luta, muito sofrimento, e alguma leitura.