O SONHO DO PESCADOR!
Por Carlos Fernando Priess (*)
João Rosa, catarinense, era um pescador de rede de arrasto nas praias de Porto
Belo e Itapema, onde morava, na localidade de Sertãozinho.
Casado com Mariazinha, uma simpática dona de casa, sempre preocupada com as
lides domésticas, conseguira, com sacrifício, construir uma casinha de madeira
com três quartos, tudo feito com muito capricho, graças ao toque de sua
companheira.
Sonhos e sonhos eram o que alimentava a esperança de João Rosa. Sonhava com
muita freqüência, que numa localidade no sul do Estado de Santa Catarina,
existia uma linda casa de campo, com uma grande figueira e que ali havia um
tacho cheio de moedas de ouro.
Era tudo muito nítido. A morada tinha um bem cuidado pasto na frente, um jardim
e aquela figueira frondosa, alimentava ainda mais os sonhos de João Rosa. Não
estaria enterrada a sua “fortuna” nas raízes da figueira?
Histórias corriam de boca em boca, que os Jesuítas, quando foram expulsos do
Brasil, teriam deixado muito ouro enterrado ao longo de sua fuga, em especial,
no litoral do seu Estado, onde teriam vindo para embarcar numa caravela que os
esperava na baía de São Miguel, pertinho da Ilha de Desterro.
A ilha de Porto Belo foi sempre muito explorada por catadores de “fortunas”, que
ali teriam sido enterradas. Não há notícias que tenham sido encontradas, mas as
histórias corriam de boca em boca.
- Maria, minha amada, sonhei novamente, com a fortuna que está enterrada numa
fazenda localizada em Laguna, numa casa cujo dono se chama Juvenal! É muito
claro para não ser verdade!
- Acho melhor você ir pescar João! Sonho é sonho e nunca ouvi falar que alguém
encontrasse alguma coisa enterrada por aí! – falou a sua Maria Francelina,
sorrindo, enquanto cuidava de seus deveres domésticos.
Mas o João Rosa ficava sempre pensando no sonho. Era muito claro para ser apenas
uma ilusão. E seu maior desejo era ter uma reserva financeira para garantir uma
velhice mais tranqüila para a sua Mariazinha e as filhas. Pescando, jamais
conseguiria, pois era apenas mais um parceiro na rede que pertencia ao Lindomar.
Eles tinham duas filhas, crianças ainda, a Irene, que chamavam de Nina e a mais
moça, que ainda engatinhava, de nome Catarina.
Certa noite acordou e falou para a sua companheira:
- Sonhei novamente com o tacho de ouro, Maria! É tudo tão claro que vou arrumar
um cavalo com o Compadre Sebastião e vou até a essa tal de Laguna, aí para o
sul! Seja o que Deus quiser.
Logo que amanheceu, foi visitar o compadre e inventou uma história sobre um
remédio muito bom que tinha lá pelas bandas do sul e que “estaria precisando”,
para as dores nas costas de sua filha Irene.
Sebastião gostava muito do compadre João Rosa, pois era um homem sério e nem
pensou duas vezes. Emprestou o seu melhor cavalo de montaria.
João reuniu umas poucas roupas de baixo para trocar durante a viagem, umas
frutas, comida e uns trocados, e, no dia seguinte, iniciou a longa caminhada.
Foram cinco dias de viagem, sempre cavalgando e margeando as praias que ligavam
a sua Itapema a Laguna, hoje conhecida como a terra de Anita Garibaldi, aonde
chegou por volta das 10 horas da manhã.
Ao chegar à entrada de Laguna, que um dia viveu como República Juliana, viu à
sua direita uma linda fazenda, com uma caprichada cerca verde, e lá no meio, a
casa e a figueira com que tanto sonhara. Ficou arrepiado e pensou:
- Meu Deus! É exatamente como tenho sonhado!
Entrou na linda morada, e com o latido de um cachorro, chamou a atenção do
proprietário, que sorridente o recebeu:
- Seja bem-vindo, gaúcho velho! Apeie e venha tomar um chimarrão!
João Rosa, não era gaúcho, mas ficou quieto e apenas disse que queria água para
o cavalo, e deixasse que descansasse e pudesse se alimentar no verde pasto que
rodeava a casa!
O senhorio, que se chamava Otávio, foi muito receptivo e confiante, concordou e
convidou João Rosa, para tomar um substancioso café com mistura.
No meio da conversa falou com todas as letras:
- Seu Otávio, na verdade estou visitando o senhor, porque venho sonhando a
vários anos que aqui no seu terreno, existe uma grande fortuna em ouro
enterrada. E se o senhor autorizasse iria procurá-la. Encontrando, a gente a
divide meio a meio!
Sorridente, disse-lhe o dono da linda fazenda:
- Meu caro, se sonho fosse verdade eu já teria me largado, lá para as
bandas do norte do Estado. Sonho quase todos os dias, que existe um lugar com o
nome Sertãozinho, num povoado de nome Itapema, onde moraria um tal de João Rosa.
Vejo claramente a casa bem pertinho do mar e debaixo existem as raízes de uma
árvore, derrubada para a construção de uma casa em forma de bangalô!
- Então o senhor também tem tido esse tipo de sonho, seu Otávio? – disse-lhe o
visitante João Rosa.
- Sim. E vejo claramente em meu sonho, um tacho de ouro que teria sido enterrado
e está debaixo das secas raízes da árvore! Mas não vou porque não acredito, nem
sei se existe essa tal de Itapema! Mas se o senhor quiser, pode procurar onde
lhe indica o seu sonho!
Arrepiado dos pés à cabeça, agradeceu muito o café e disse então que “tocaria”
em frente.
Com a maior calma e serenidade do mundo, montou em seu cavalo e enfrentou mais
cinco dias para voltar à sua casa, onde de fato, debaixo do assoalho da sala,
estavam as raízes da árvore que um dia derrubara para construir a sua morada.
Chegando em casa, devolveu o cavalo para seu compadre Sebastião, agradeceu-lhe
muito, e lhe disse que tinha trazido o “remédio” para a sua filha Irene!
Junto com a sua Maria Francelina, arrancou o assoalho da sala e cavou debaixo
das raízes que estavam já bastante apodrecidas.
Não precisou cavar muito. Lá estava um tacho com grande quantidade de pepitas e
moedas de ouro, que foram a garantia de sua velhice tranqüila, sem jamais ter
contado para ninguém.
Um segredo guardado durante anos e anos.
(*) Advogado/Mestrando em Direito – carlos@priess.com.br