BICICLETA
Por Vlad Suato
O meu tamanho não permite sair pronto da loja para a balada. Para acertar as
medidas do jeans, fui à costureira ali da esquina.
Ainda não me acostumei com os resultados dos novos tratamentos de beleza
utilizados pelas madames e mais uma vez espantei-me com a figura que deixava a
pequena alfaiataria.
Feito "boca quiusa", a costureira cantarolava:
- Vou para o céu... Ah! Claro que vou!
Enquanto eu era literalmente alfinetado, não eram contidas as gargalhadas.
- Coitada da empregada, ela a chamou de analfabeta...
Ao tirar entre os lábios o último alfinete, virou-se pra mim uma das artistas
das linhas e deu início à narração dos fatos que até agora aguçavam minha
curiosidade.
- Olha moço, pra que serve tanto dinheiro?
Eu, com cara de pescoço, até pensei em enumerar as belezas que se podem
conseguir com as notinhas, mas pela entonação, achei melhor só murmurar um
simples e pálido "pois é".
- Sabe aquela perua que saiu daqui? Você nem sonha o que aconteceu. Ela é dona
daquela loja de departamentos entre as ruas tal e tal naquele bairro nobre. Vai
passar o Réveillon lá na praia, naquele hotel "chiquetoso". Pois bem. A
passadeira "analfabeta" queimou o vestido da fofa e ela trouxe pra eu costurar.
Ficou horrível. O vestido já era feio e, após o remendo, ficou um horror... Pra
que adianta todo aquele "dindin" se não pode sequer comprar outro vestido?
Fomos interrompidos por outra cliente e a história acabou por aí.
Como não sou muito certo da cachola, evidentemente a pergunta não me desgrudou
mais do pensamento.
Dinheiro?
Mesmo nas mais imaturas das minhas idades, nunca tive o discurso superficial de
que o dinheiro não teria importância. O dinheiro assegura condições humanas de
existência, pelo menos da forma como foi concebida e estruturada a vida social.
A grande dificuldade, porém, é lidar com a finitude humana certa e imprevisível.
Que vontade de viver como os hedonistas!
De real, temos o agora. Mas é ilusão acreditar que não haverá o daqui a pouco.
Nossa Senhora das Bicicletas, dê-me equilíbrio pra viver essa dicotomia;
conviver com a possibilidade de tudo acabar neste instante, mas também com a
grande probabilidade de as coisas demorarem pra acabar, sequer, talvez,
acabarem.
Precisamos do dinheiro para agora. Mas não podemos deixar de ter dinheiro caso
amanhã eu ainda persista em existir.
Permeando essas idéias é que desejo para o próximo ano essa tranqüilidade em
viver o hoje como se não houvesse amanhã, mas também como se houvesse amanhã.
Espero que os convidados daquela festa naquele hotel não percebam o furo no
horrível vestido da pobre empresária.