A Inteligência israelense
Por Carlos I.S. Azambuja
Resumo: Carlos Azambuja aborda um dos maiores sucessos da inteligência
israelense: o resgate em Entebbe.
Em 6 de outubro de 1973, um sábado, dia do Yom Kippur, o dia mais sagrado do
calendário judaico, quando Israel normalmente cessa todas as suas atividades, os
exércitos da Síria e Egito surpreenderam as posições defensivas israelenses nos
territórios que esses dois Estados haviam perdido na Guerra dos Seis Dias. Pela
primeira vez, os Serviços de Inteligência israelenses fracassaram em sua missão
primária: dar o alerta antecipado da guerra. O fracasso foi atribuído
fundamentalmente ao AMAN, cujo efetivo era de cerca de 7 mil homens e mulheres.
A surpresa do Yom Kippur foi similar à descrita pelos historiadores a respeito
do ataque a Pearl Harbor, em 1941. Os informes existiam, mas os chefes da
Inteligência os integraram e analisaram de forma errônea e, por isso, os
soldados israelenses tiveram que compensar com suas vidas pelo erro dos Serviços
de Inteligência.
Os sírios reconquistaram parte das Colinas de Golan, os egípcios cruzaram o
Canal de Suez e tomaram uma cabeça-de-ponte no Sinai. Moshe Dayan, o herói da
Guerra dos Seis Dias, agora Ministro da Defesa, entrou em pânico. Estava tão
sombrio no terceiro dia da guerra que comentou aos editores dos jornais
israelenses sobre a possível destruição do “Terceiro Templo” de Israel. A
história judaica faz alusão a um “Primeiro Templo” sagrado em Jerusalém,
destruído pelos babilônicos, em 586 A.C., e de um “Segundo Templo”, arrasado
pelos romanos no Ano 70 da nossa Era. O “Terceiro Templo” seria o próprio Estado
de Israel, e Dayan considerava, então, mínimas as suas chances de sobrevivência.
Cogitou-se naquela semana da possível necessidade da utilização de bombas
nucleares, como um último ato de defesa, quase suicida. Por ordem de Moshe Dayan,
os mísseis Jericó e as plataformas especiais para bombas nos aviões Phantom
chegaram a ser preparados para a possível utilização de armas atômicas.
O desespero da Primeira-Ministra Golda Meir foi tamanho que ela chegou a pensar
em suicídio, segundo recorda sua confidente Lou Kaddar.
No entanto, os contra-ataques israelenses, à custa de um preço extremamente alto
em vidas, acabaram levando à vitória.
O dano maior, em longo prazo, foi que todo o Estado de Israel perdeu a confiança
em sua outrora lendária Comunidade de Inteligência. Esse não foi apenas um
sentimento. Ficou por escrito, pois Golda Meir determinou a instauração de um
inquérito sobre a mechdad (omissão) dos Serviços de Inteligência, que tornaram a
guerra uma surpresa total.
O relatório do inquérito destruiu implacavelmente as carreiras do chefe do AMAN,
general Eli Zeira e três de seus assistentes.
Paralelamente, Golda Meir e Moshe Dayan não se livraram das críticas e, em abril
de 1974, quando as pressões tornaram-se insuportáveis, ambos renunciaram.
Yitzhak Rabin tornou-se o novo Primeiro‑ministro. Como chefe do Estado-Maior do
Exército na Guerra dos Seis Dias e, posteriormente, como embaixador nos EUA,
Rabin não desconhecia os relatórios da Inteligência.
Em 1974, Rabin nomeou o general Yitzhak Hofi para dirigir o MOSSAD. Nesse cargo,
ele permaneceria até 1982. Nascido em 1927, Hofi tornou-se o primeiro sabra a
chefiar o MOSSAD. Sabra, em hebraico “fruto do cacto”, é o termo usado para
designar os cidadãos israelenses nascidos no país, porque se diz que são
espinhosos por fora, mas doces por dentro.
A diplomacia secreta do MOSSAD foi enfatizada pelo general Hofi. As ligações
clandestinas desenvolvidas pelos diplomatas alternativos foi invocada quando do
seqüestro de um avião comercial francês para Entebe, Uganda, em 27 de junho de
1976. O vôo 139 da Air-France deixara Tel-Aviv com destino a Paris e foi
seqüestrado por cinco guerrilheiros da Frente Popular de Libertação da Palestina
e dois membros do grupo alemão Baader-Meinhof. O avião conduzia 250 passageiros,
83 dos quais israelenses. Somente os israelenses foram mantidos sob seqüestro,
sendo os demais libertados. Essa segregação enfureceu os membros do MOSSAD e
AMAN, pois recorda a “seleção” feita pelos nazistas na Segunda Guerra Mundial,
para as câmaras de gás. O MOSSAD ficou particularmente irritado porque Idi Amin,
que assumira o Poder em Uganda três anos antes, em um golpe com a ajuda do
MOSSAD, mostrava-se simpático ao mundo árabe e aos seqüestradores.
Rejeitando libertar 40 terroristas em troca dos reféns, Israel optou por uma
operação militar. Na noite de 3 de julho de 1976, seis dias após o seqüestro, a
Força Aérea transportou várias unidades Sayeret a mais de 3 mil quilômetros de
Israel para acabar com o seqüestro. Aviões C-130 lotados de militares, armas e
um hospital de campanha, aterram em Entebbe sem qualquer ruído e, em poucos
minutos 81 reféns foram resgatados e dois morreram no tiroteio. Os sete
seqüestradores foram mortos. O Tenente-Coronel Yonatan Nethanahu, comandante da
operação, foi o único Sayeret morto. 45 soldados de Uganda morreram.
O fator fundamental do êxito da missão foi o excelente trabalho preparatório
efetuado por anônimos agentes do MOSSAD na África. Alguns deslocados rapidamente
de outros países. Na época, o Zaire, a Nigéria e o Quênia eram os três centros
estratégicos do MOSSAD na África.
O sucesso de Entebbe foi estimulante para os Serviços de Inteligência, três anos
após sua humilhação no Yom Kippur.