| NOSSA SOCIEDADE ATUAL E A QUESTÃO
MORTE E MORRER Por Luiz Alberto
Silva*
Apesar dos vínculos conceituais entre vida, morte,
finitude, vulnerabilidade e proteção existem dificuldades
sérias em definir diretamente a morte, visto que em
condições normais, não temos experiência direta dela. Com
efeito, se é relativamente fácil ter uma experiência
indireta da morte, graças à morte dos outros, é quase
impossível pensar na própria morte sem pensar também na
própria vida e/ou em alguma vida após a morte.
Em outros termos, a morte enquanto tal é praticamente
impensável e quando, por alguma razão de força maior, ela se
impõe à consciência e a elaboração, isso só se dá com muito
sofrimento, em situações de vulnerabilidade e através das
experiências sofridas do desamparo, que de fato são
experiências dos seres humanos, vivos que vivenciam a
precariedade da condição humana, mas não a morte.
Esta impossibilidade provavelmente explica o porquê as
sociedades contemporâneas tem cada vez mais dificuldades em
pensar a questão da morte e do morrer em seus aspectos de
processo e em suas múltiplas significações, e isso apesar da
sociedade contemporânea ter-se tornado uma sociedade do
risco, na qual se multiplicam as ocasiões de experienciar a
vulnerabilidade e enfrentar a morte em situações violentas
de vários tipos. Este aparente paradoxo consistente no
“recalque” do pensamento da morte, por um lado, e na
persistência de ocasiões de experiência da morte e até na
emergência de novas formas de violência e de maneiras de
experienciar a morte, a última das quais é agora o perigo do
bioterrorismo.
Atualmente, os cuidados paliativos vêm justamente para
preencher esta lacuna existente entre, por um lado, a
competência técnica da medicina e da cura (que apesar dos
grandes e incríveis avanços continua a ser limitada) e a
cultura do respeito da autonomia do cliente no que se refere
às suas decisões extremas, as quais implicam também em poder
dizer quando não quer mais viver sofrendo, sem adentrar nas
questões éticas.
Mas, para isso seja talvez necessário mudar a maneira de
pensar a relação da vida e da morte, o que certamente é uma
tarefa árdua, sobretudo se pensarmos que ela implica numa
ferida narcísica profunda no desejo de onipotência de quem
que seja. Nada fácil essa missão, mas a busca pelo
conhecimento, a pesquisa e mudança de paradigmas com certeza
são uma “luz no fim do túnel”.
*LUIZ ALBERTO SILVA
Enfermeiro Especialista COREN 134865 e cursando
Especialização em Cuidados Paliativos e Tanatologia
E-MAIL: bethohot@hotmail.com |