| SURUBIM
Por Vlad Suato*
Até então, o que eu conhecia por surubim era o mestre da
bateria de carnaval da infinitamente pequena cidade onde
nasci. Pois bem, era o senhor Surubim que escalava o povo
que comporia aquele grupo. Nunca entendi os motivos pelo
qual eu não fora aprovado para tocar nem ao menos um simples
instrumento, talvez porque fosse preconceito social ou outro
qualquer... Feita essa lamentação ridícula, como diria uma
certa amiga, partamos para o roteiro que me levou a
descobrir, a pauladas, o que é o tal surubim.
Recém formados, uma colega de turma e eu resolvemos nos
aloprar em concursos públicos; sem fronteiras; sem limites.
Quase fomos fazer concurso para procurador jurídico da
Prefeitura de Cochabamba, se é que existe. E a família,
evidentemente, sempre a apoiar, o que levou a sua irmã e o
seu, hoje marido, namorado a nos acompanharem numa das
aventuras. Lá fomos nós de Campinas para Belo Horizonte.
Pode-se perceber, já neste momento, que o peixe fora d`água
era eu. Elas são irmãs e, óbvio, com mais chances de serem
íntimas. O namorado de longo tempo, também íntimo e eu,
naquele vespeiro com toda a ansiedade que uma prova pode
acarretar.
Chegar naquela cidade não foi difícil, ainda mais que fui
feito paxá no banco traseiro, a ler minhas anotações e a
aterrorizar minha colega com detalhes da matéria, fazendo
ferver o termômetro da ansiedade: você sabe o que diz o
artigo tal da lei tal?
Eu não sei se foi impressão minha, mas achei muito
complicado o trânsito daquela cidade. Conseguíamos avistar o
hotel, mas não descobríamos a estrada dos tijolos amarelos
que nos levasse ao seu hall de entrada.
“Olha o hotel ali a sua esquerda!”
“Verdade!”
“Ele está ficando pra traz...”
“Não sei como chegar até lá.”
E assim rodeamos aquele hotel, ora ele estava à esquerda,
ora à direita, ora à frente, nunca acessível aos pés. De
repente, não sei como, encontramos a entrada.
Diante da dificuldade em conseguir chegar ao hotel, minha
amiga o seu zeloso cunhado, puseram-se a tomar milhões de
informações com o pessoal da portaria do hotel. Fincaram-se
por mais de meia hora naquele saguão, enquanto a irmã e eu
fomos ao quarto analisar as acomodações. Tivemos, então, a
original idéia de pedirmos na copa uma porção do maravilhoso
pão de queijo mineiro.
Assim que subiram os demais habitantes daquele quarto,
cobrei a demora do pão pelo interfone. Quão grande foi a
surpresa com a justificativa: ele está sendo descongelado no
microondas. É isso mesmo que você entendeu, eles nos
mandaram aquele tipo de pão de queijo que compramos
congelados nos hipermercados.
“Entenderam a localização do hotel, depois de tanta conversa
com o porteiro?”
“Sim, ele nos fez um mapa para irmos jantar num restaurante
próximo daqui.”
Ao sairmos do hotel à procura do referendado restaurante, na
esquina, inacreditavelmente, estávamos perdidos. Não
conseguíamos voltar para o hotel nem sequer encontrar o
restaurante. O bicho pegou dentro daquele carro.
Sabendo da minha frágil intimidade perto daquela existente
entre as demais pessoas, restava-me apenas rezar para que
não fosse declarada guerra a minha pessoa. Minha amiga, na
posição de co-pilota, analisava atentamente aquele mapa
quando sua irmã, desavisada, pegou-o para dar o seu pitaco
sobre o trajeto.
Ao meu lado ela tentava enxergar aqueles traços como se fora
o mapa do tesouro. De repente, feito o gancho do capitão
também Gancho, uma mão avassaladora partiu do banco
dianteiro e arrebatou aquelas anotações partindo-as em
pedaços.
Nas mãos da co-pilota parte do mapa, nas mãos da irmã, em
lágrimas, o resto da rota da comida.
Eu? Quietinho.
Enfurecido o namorado, naquele incidente motorista, tomou as
rédeas da situação e a perguntar pela cidade nos levou a um
amontoado de restaurantes.
O silêncio aguardava a próxima polêmica.
Um por cada porta, descemos daquele veículo da discórdia.
Mapas aos pedaços preconcebiam a dificuldade em voltar ao
hotel...
O garçom, com aquele conhecido jeitinho mineiro de boa
praça, querendo ser simpático, mostrou as opções do
cardápio. Evidentemente, ele não fora esperto o suficiente
para não tornar-se a mira daqueles soldados em guerra. Não
faltaram “elogios” à conduto do coitado.
“Eu quero uma carninha.”
Acompanhando essa manifestação da minha amiga, sua irmã e eu
também queríamos uma boa picanha para mastigar aquele
estresse. Então, pedimos dois pratos pra dois. Ai!
Mais um round. O namorado hoje marido, a rugir olhou
atentamente para aquela mesa e aos GRITOS disse: EU NÃO
QUERO CARNINHA, EU QUERO PEXIE, QUERO SURUBIM!
Mamma mia, eu que nem sabia o que era surubim, sob aqueles
gritos tive de fazer a respiração outrora aprendida com
aulas de ioga para apreender tanta novidade... O garçom, sem
entender nada, trouxe carne pra uns e o famoso surubim para
o outro.
...
Ao voltar para o hotel, depois de alguma dificuldade e de
silêncio total sobre quatro rodas, cheguei ao quarto e pedi
mais um travesseiro ao serviço de quarto. O rapazote que me
atendeu disse que não sabia se iria conseguir me atender,
mas “que ia ver o que dava pra fazer”.
Uh! Hu!!! Aí foi minha vez de estravasar e berrei com o
cara:
“Eu tenho direito, vou ao PROCON, quero meu travesseiro”.
Coitado daquele atendente, até hoje deve estar no analista
tentando entender o que houve.
Foi assim que descobri o que era surubim. Será que aquele
cara da bateria do carnaval tinha apelido de surubim por
causa do seu porte avantajado, cabeça grande e corpo
amarelado?
*Vlademir N. Suato, Mestre em Direito
Processual Civil, 38 anos, Campinas/SP. email:
vladsuato@hotmail.com
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