| Regime da sopa
Por Vlad Suato*
Veja se há alguma possibilidade dessa história ter um bom
final!
Nos últimos dias de trabalho antes das férias, visitei meu
oftalmologista. Fiquei surpreso quando ele disse que tenho
olhos de piloto de caça e que por isso poderia aposentar
meus queridos e sonhados óculos. Sonhados porque quando
criança sempre quis usá-los.
Naquele instante, na frente do médico, como num ato
reverencial, peguei o estojo e guardei meu transmissor HD de
imagens. Acreditava ser pra sempre.
Focado nas mudanças do porvir, ao entrar em férias, assumi
que finalmente faria o esperado regime. Teria de perder uns
cinco ou seis quilinhos para que a pressão arterial me desse
sossego. Foi então que tive a nada original idéia de fazer o
regime da sopa divulgado no site da Ana Maria Braga. Vá
imaginando...
O regime promete emagrecimento de três quilos ou mais em uma
semana de sopa e outros acompanhamentos. No domingo me
resignei e decidi que a semana vindoura seria de mudança
total da minha circunferência abdominal. Dirigi-me, a
marchar, a um hipermercado.
Em meio a tantas guloseimas, rumei ao setor “hortifruti”. A
procura era incessante ao “delicioso” salsão, nabo, repolho,
berinjela... Enfim, coisas saudades e muito saborosas.
Após colher vários ingredientes, percebi que naquele local
não havia nabo nem sequer o imprescindível salsão. Quase
sucumbi aos obstáculos e fui ao setor de embutidos. No
entanto, a voz da hipertensão falou aos meus ouvidos,
zunindo, e discretamente devolvi aqueles alimentos e
procurei novo mercado.
Noutro estabelecimento, fiz nova colheita e, mais uma vez,
faltou-me o nabo. Pensei com meus botões que era um sinal,
mas resisti novamente. Comprei aqueles ingredientes e no dia
seguinte, muito ansioso fui à quitanda à procura do nabo.
“Não é tempo de nabo, por isso não está encontrando”.
“Então, onde eu poderia ‘estar encontrando’?”
Sem resposta fiquei.
Entreguei-me ao sacrifício. Naquele primeiro dia foi só
sopa, melancia e melão.
Aos poucos, uma dorzinha de cabeça começou a perturbar-me.
Mas isso não era nada para tanta dedicação.
A par da sopa, resolvi abraçar os exercícios físicos.
Nas proximidades da minha residência há um bosque, feito um
micro zoológico. Instalei o marcador de batimentos cardíacos
e segui minha séria marcha para aquele local.
“Hoje se vão uns dois quilos!”
Zoológico fechado. Seria outro sinal?
Pra não perder a viagem, dei uma volta ao redor do bosque e
voltei suando, quase desidratado, para meu querido lar.
Sopa e melancia me refaziam.
Acabei a meta da caminhada na esteira.
Logo à noite, fui a uma festinha de aniversário convicto que
resistiria às tentações culinárias. A festa foi recheada com
pizza. Eu havia avisado que não jantaria, que estava apenas
vindo cumprimentar a aniversariante.
Todos à mesa, uma família formada da mistura de libaneses e
italianos, por isso discreta. Viram-se para mim e perguntam:
“Qual o sabor de pizza que prefere?”
Sem titubear, para não parecer mal educado, respondi:
“Atum.”
Dois pedacinhos de pizza não trariam grande estrago ao
regime, certamente...
Na terça, decidi continuar firme e forte.
Ao ver o noticiário local, descobri porque o zoológico
estava fechado. Simplesmente o lobo-guará havia escapado e
caçava livremente pelo bosque... Sinal?
A dor de cabeça intensificou-se.
Na terça eu poderia comer, além da sopa, abobrinha e
chuchu... Que presente celestial!
Sopa, chuchu, lobo-guará, nabo, dor de cabeça... Explodi.
São muitos sinais, o que fazer? O que o universo quer me
dizer?
Bem, acho que ele só queria dizer que eu deveria voltar a
usar os óculos.
“Pá buf!”, usei os benditos e a dor de cabeça se foi.
Subi na balança, três quilos a menos...
Fiquei tão feliz que resolvi ir para o site da Palmirinha
Onofre e fiz o delicioso Pão da Fazenda..kkk.
Hum! Que delícia!
Hoje ainda não me pesei.
*Vlademir N. Suato, Mestre em Direito
Processual Civil, 38 anos, Campinas/SP.
email: vladsuato@hotmail.com - http://pontesdisfarcadas.zip.net/ |