ÓRFÃOS DA GENEROSIDADE

Por Vlad Suato

No café da manhã, minha faxineira pediu permissão pra me dar um presente. Achei meio estranho, mas durante o papo entendi do que se tratava. Ela pretendia me dar uma bíblia e queria ver a minha reação.
De diversas religiões, esta será a terceira vez que ganho tal presente, justo neste momento que estou meio confuso com as passagens bíblicas, não que as conheça muito bem, por ter sido apresentado ao Caim genérico criado pelo Saramago.
Embrulhado para presente, nas festas natalinas ganhei o bendito, ou talvez maldito, livro. Esse novo Caim contesta as ordens divinas colocando aquele deus criado por ele em diversas saias justas. Nessa narrativa é trazida a história de Jó e, na mais incrível coincidência, nesta mesma semana uma colega de trabalho me chamou de “o próprio Jó”. Em outro bate-papo, também por estes dias, triscamos na vida de São Francisco de Assis.
Em meio a tanto assunto ligado à divindade, acabei por concluir que todos os assuntos giram em torno da generosidade. E o que será isso?
A paciência, a caridade, a solidariedade e o desprendimento material estão intimamente ligados a essa coisa que torna a pessoa generosa. Contudo, há outra face do negócio.
Quando se fala em ser generoso imediatamente nos vem a idéia de ajudar alguém, porém esse emaranhado criado por nossas emoções serve apenas para ocultar o verdadeiro beneficiado disso tudo que, sem dúvida, somos nós mesmos.

Ao se analisar direitinho as coisas, podemos perceber que realmente é dando que se recebe, mas não do jeito que se espera. No exato momento que se doa a alguém, recebe-se. Aquele gesto de hombridade faz com que o homem faça contato com o mais puro da sua própria essência, levando-o a um verdadeiro orgasmo por realizar o seu ser.
E digo mais, agir dessa forma causa dependência a ponto de se entrar em profunda crise quando se perde alguém que dependa dessa generosidade ou que simplesmente não a aceita... Órfãos da generosidade!
Fica aí a dúvida encalacrada na alma. Será o generoso aquele que descobriu antes dos demais o jeitão gostoso de ficar maluco, saciando seu prazer por meio de atitudes que acolhem seus semelhantes?
Não sei de onde vem isso que é a generosidade, mas acho que encontro esses malucos pelo meu caminho e a cada gesto que me é feito com generosidade, sinto também toda a alucinação que pode impingir o espírito daquele que me aquece.
Resta agradecer a união mAIS BELA com essas pessoas!

PS. Texto em homenagem a uma das pessoas mais generosas que conheço: querida Isbela.


*Vlademir N. Suato, Mestre em Direito Processual Civil, 38 anos, Campinas/SP. email: vladsuato@hotmail.com  - http://pontesdisfarcadas.zip.net/