O EXTERMINADOR DO PRESENTE II

Por Rubens Cruz*

Não. Não sinto nenhum prazer em escrever esta série de artigos. Primeiro, porque não é nem um pouco lisonjeiro ou aprazível tratar de assuntos tão desagradáveis sobre a administração da cidade que amo e pela qual optei para morar e criar minha família. Digo optei por que ao cursar pós-graduações em universidades de outras cidades e lecionar em outros campus da Unesp (Londrina, Campinas, Botucatu), por convite, tive a oportunidade de nelas permanecer e exercer o mesmo trabalho em que me aposentei em Assis.
Também não é agradável porque todos sabem o quanto me empenhei nas campanhas da eleição e depois da reeleição do Sr. Ézio Spera. E o fiz, sem nenhum interesse por benefícios pessoais. O convite para participar do seu Governo como Secretário da Educação, na primeira gestão, foi uma grande surpresa e muito relutei em aceitar. Para a campanha da reeleição, em 2008, tinha inteira convicção de que não seria convidado para permanecer no cargo e mesmo assim, participei ativamente da campanha. Solicitou-me, o Sr Ézio, que escrevesse seus programas de rádio e dos dezenove programas que seriam apresentados de agosto a outubro, escrevi treze, dos quais, três foram repetidos, totalizando dezesseis apresentações. Tenho-os todos na memória e nos HDs de meus computadores. Portanto, sei de cada palavra e de cada proposta apresentada pelo Sr. Ézio para a segunda gestão. E tudo se resumia em uma só expressão: continuidade do governo. Sei, perfeitamente, que continuidade de governo não significa, necessariamente, na continuidade de pessoas. E acho isto normal e até salutar. Que outros cidadãos com novo vigor, novo fôlego, e sem os desgastes naturais de um cargo pesado como o de Secretaria da Educação assumam para dar continuidade aos projetos em andamento. Portanto, que não vejam mágoa ou qualquer tipo de retaliação na minha escrita.
Entretanto não foi nada disto o que aconteceu. Terminada a campanha o Sr ´Ezio, mudou o seu discurso. Para o espanto de toda a população, começou a falar em “secretariado político”, num momento em que a palavra “político” tem o mais pejorativo dos sentidos, em toda a história brasileira. Com raras e honrosas exceções, “político”, hoje, é sinônimo de mensalão, corrupção, dinheiro público na cueca e nas meias, novas práticas da “política moderna”, iniciadas pelo PT e esmeradas e aperfeiçoadas pelo DEM, o partido do Prefeito. Sempre lembrando as exceções, “político”, hoje é demagogia; é mentira; é crime como os cometidos contra os ex-prefeitos Celso Daniel e Toninho do PT, nunca esclarecidos, e impedidos de se apurar pelas próprias hostes petistas. “Político” hoje é privilegiar amiguinhos e correligionários em detrimento da competência, da honestidade, da moralidade e da grande massa popular, carente dos mais primários benefícios públicos como saúde e educação. Mas esta foi a opção do Sr. Ézio. Sem nenhum pudor e sem nenhuma preocupação com a qualidade do trabalho que tais “secretários políticos” estivessem habilitados a prestar à nossa população. Não sei como chamar isto: traição aos eleitores, propaganda enganosa ou aplicação do 171? Deixo a escolha para o nobre leitor.
Não podia dar noutra. Passado um ano da nova gestão e o que se vê é o sucateamento do que foi feito nos quatro anos anteriores. Principalmente nas áreas da saúde e da educação. O trabalho iniciado e já quase finalizado de informatização da saúde foi, de início, paralisado e depois, abandonado. Este trabalho realizado através de software desenvolvido pelo próprio Secretário anterior, Dr Mário Monteiro, (um “expert” no assunto) iria permitir um completo raio-X de todos os usuários do SUS em Assis, evitando filas nas unidades se saúde, duplicações de consultas desnecessárias e distribuição de medicamentos a esmo. Hoje, faltam médicos, faltam medicamentos e a prática do clientelismo voltou com todo vigor. Há alguns dias, um presidente de associação de bairros de uma ponta de vila, dentro de um bar, exibia um cartão do Secretário com seu telefone celular e se vangloriava aos demais freqüentadores: se precisarem de qual quer coisa “na saúde” é só me procurar. E os demais usuários? E os que não são amigos do amigo do Secretário? Sobre a saúde voltaremos a falar em outra oportunidade. Ao invés de política de educação e de saúde, em Assis, hoje faz-se política na educação e na saúde. Há alguns dias atrás, a Sra. Secretária Política da Educação atribuiu trabalho para três amiguinhas que haviam sido reprovadas na seleção de projetos. Para reverter a situação teve que haver a intervenção de um vereador.
A omissão da administração na segunda gestão se faz sentir em todas as áreas. O prefeito sumiu. Segundo assessores muito próximos, o alcaide chega a ficar sessenta dias ou mais sem comparecer no Paço Municipal. A Prefeitura, na visão deles, virou um elefante branco. A “administração” fica por conta de apenas duas pessoas, não sei se as mais indicadas. Pelo que me disse um dia, o Sr Prefeito, no transcorrer da primeira gestão, pelo menos um deles não o seria. Um dia serei mais explícito. O primeiro ano da segunda gestão foi totalmente perdido. Não só não avançamos, como retroagimos, em tudo. E o Prefeito, ausente, desinteressado. Perdeu o entusiasmo e o elan. Esta constatação não é minha, mas de grande parte da população mais crítica e ligada no desenvolvimento da cidade. Após a publicação do primeiro artigo desta série recebi um grande número de telefonemas e e-mails. Inclusive de grandes amigos e até colegas do Sr Prefeito que não entendem a sua omissão e mudança de comportamento da primeira para a segunda gestão. Alguns chegaram mesmo a levantar a hipótese de formar um grande grupo e pedir explicações ao Prefeito ou sugerir que se afaste da administração, temporariamente ou, em definitivo. O que não é mal dirigido está acéfalo. Voltaremos ao assunto! E temos muita coisa para falar. Do fechamento do shoping e nossa juventude sem cinema. Do uso político das verbas da educação. De um plano de carreira draconiano para nossas professoras. Dos desmandos da Saúde. Do abandono de praças e jardins, etc, etc. Agora apenas gostaria de sugerir ao alcaide que procurasse um papel na versão dois da produção cinematográfica de David Zuker dos anos oitenta “Apertem os cintos... o piloto sumiu”.


* Professor aposentado da UNESP