Escola desafiada

Por Vlad Suato*

Enquanto muitos universitários arriscam-se como garçons nos magros tempos de estudos, eu aventurei-me pelas escolas públicas a ensinar a difícil arte matemática. Naquele tempo, os cálculos aterrorizavam as minhas noites no curso de Matemática e os dias eram repletos de crescimento em meio àqueles alunos.

Eu tinha apenas completado dezoito e meus alunos estavam na faixa entre onze e treze anos. Como se pode ver éramos adolescentes, o que resultava, muitas vezes, numa catástrofe. Eu encenava o mestre, mas faltava-me a experiência dos mais vividos para contornar os conflitos interpessoais. Apesar da pouca idade, eu via com muita clareza o que queria enfiar na cabeça daquelas crianças. Minha busca incessante era fazer com que eles acreditassem que poderiam, por meio da aprendizagem, chegarem aonde quisessem. Queria que soubessem que teriam a mais importante arma da vida, caso abraçassem a causa do conhecimento.

Certo ano letivo, fui incumbido de organizar a festa junina. Escolas pública até hoje mobilizam-se em momentos festivos para arrecadar fundos. Havia sido furtado da escola o vídeo cassete e a televisão e precisávamos adquirir novos aparelhos.

Nos meus tempos de ensino fundamental, sempre participei das festas, principalmente da festa junina; fui noivo pra lá de muitas vezes. Com esse know how, achei que seria moleza desempenhar aquela incumbência. Quão grande, contudo, foi o meu espanto, quando passei a fazer as inscrições para quadrilha. Poucos gatos pingados inscreveram-se, entre eles uma garotinha linda de dez anos que estudava na então chamada quinta série.

Ao fazer uma sondagem entre os alunos, passei a ter conhecimento do que levava àquela repulsa. Os garotos, é claro, achavam ridícula essa coisa de dançar. As meninas reclamavam que todo ano era a mesma coisa: “Aquela linda aluna da quinta série sempre era a noiva; a sua mãe havia comprado um vestido de noiva de verdade para a quadrilha...” Que sinuca!

Pra piorar a auto-estima dos alunos, o Sr. Prefeito havia ensaiado um grupo de baile municipal, o qual com o patrocínio do erário público apresentava-se em todas as festas juninas com seus figurinos impecáveis e coreografias apoteóticas.

O primeiro desafio era convencer os meninos a participarem dos ensaios. Lamento, mas tive de corrompê-los com incentivos. Abonos, dispensa de trabalhos e coisas do tipo...

“Já que ganha ponto, eu vou.”

E como enfrentar a saia justa da bela noivinha, com seu vestido empacotado para levar à lavanderia?

Um problema de cada vez. Como tinha de ensaiar os passinhos da quadrilha, convidei outra professora que também estudava comigo, para formar um par e demonstrar a dança.

Formamos os pares e fomos ensaiando durante um mês. A festa aproximava-se e eu não achava a saída para os noivos. De repente, alguém perguntou se não haveria o famoso casamento caipira que daria razão à quadrilha. Mais que rapidamente, joguei a idéia entre os professores e todos participaram dessa comédia. Uma professora virou a mãe da noiva, outra a freira que acabou fazendo o casamento. Outro era o pai da noiva e o assunto foi se diluindo e a minha colega e eu assumimos o posto de noivos.

Diante do envolvimento geral dos alunos e dos professores a festa foi um sucesso. A animação do grupo era palpável. Quando chegou o maravilhoso corpo de baile do Sr. Prefeito, já tínhamos dado nosso show. Arrecadamos o necessário e tenho certeza que aqueles moleques ficaram com uma bela recordação.

Durante a festa, sumiram algumas garrafas de vinho que tinham sido doadas pela comunidade. Vocês acreditam que a Diretora da Escola achou que algum dos professores, talvez eu, tivesse surrupiado a bebida?

No meio dessa folia e muitas outras que aprontamos, penso que os aluninhos daquele tempo entenderam o que eu falava sobre se alcançar aquilo que se quer por meio do conhecimento. Dos poucos que tenho notícia, sei que alguns formaram-se em Química , que uma mora no Canadá, outra nos Estados Unidos, outra é servidora pública... Todos aparentemente de posse de seus destinos.

É bom ter história para contar!

*Vlademir N. Suato, Mestre em Direito Processual Civil, 38 anos, Campinas/SP. email: vladsuato@hotmail.com  - http://pontesdisfarcadas.zip.net/