| Deus permita: Quaresma só de Carnaval
Por Edson Terto da Silva*
“Acabou toda essa brincadeira/ Não há jeito de ser
diferente/ Como sempre chegou quarta-feira/ E a praça não é
mais da gente/ Andam soltos fantasmas e bruxas/ Lobisomem em
noites de lua/ O saci dança em noites escuras/ E ninguém tá
seguro nas ruas...” de Ivan Lins e Vitor Martins. A
primeira vista, as estrofes da música Quaresma, gravada em
1978, por Ivan Lins, obra composta em parceria com Vitor
Martins, refere-se ao momento pós Carnaval, como o que
passamos agora, onde muitos ainda curtem a ressaca pós
“Folia de Momo”. Eu disse a primeira vista, senão vejamos
bem, estamos falando de Ivan Lins, uma das mentes artísticas
brilhantes que não ficaram omissas diante do Golpe Militar
de 1964.
Todos recordam que o Golpe foi num dia 31 de março e em 1º.
de abril (Dia de Mentira), nós brasileiros acordávamos com a
triste realidade de ter que conviver, sabe-se lá por quanto
tempo, com um regime ditatorial. Em 64 eu tinha apenas dois
anos, mas sei que na época homens e mulheres de fibra
protestaram contra o Golpe. Alguns chegaram literalmente
lutar para tentar manter a democracia, muitos pereceram,
outros foram torturados, exilados ou desapareceram, enfim
fizeram o que precisavam fazer, fizeram sua parte, não se
omitiram ou se conformaram com a situação. Mas voltando a
Quaresma do Ivan Lins, ele diz que a brincadeira acabou,
como sempre chegou quarta-feira e a praça não é mais da
gente. Detalhe: o primeiro de abril do Golpe foi uma
quarta-feira...
Entrevistei Ivan Lins uma vez para uma rádio de Campinas,
foi nos anos 80 e não cheguei entrar no mérito se o
compositor faz ou não um paralelo entre sua Quaresma e os
tempos fantasmagóricos do Golpe, período que enfrentaríamos
de 64 até 85. Mas eleição para presidente da República do
jeito que deve ser sempre, ou seja direta e livre, só
voltaríamos a ter em 1989. Mas levando em consideração a
mente brilhante do Ivan Lins e de tantos outros respeitáveis
artistas brasileiros, que se engajam na luta da maioria do
povo, tenho certeza que a Quaresma refere-se ao Golpe,
tempos em que ninguém que quisesse manifestar o sagrado
direito de pensar estava seguro nas ruas. O mesmo recado
Ivan tinha dado em outra canção: “Abre Alas”, que
coincidentemente também faz paralelo ao Carnaval.
Passado mais um Carnaval em que democraticamente as praças
foram do povo e em um ano onde teremos mais uma eleição
direta para presidente, sempre é bom pensar o quanto é
importante a democracia, o sagrado direito de fazer valer a
nossa vontade nas urnas, de debater ideias, de cobrar
aqueles que nos representam, de nos fazer representar
livremente, enfim de contribuir para que nosso país possa
ser cada vez mais representativo e importante no mundo e que
seja uma pátria de oportunidades para a maioria. Só para
continuar na carona do Ivan Lins, porque não declarar: “Amor
é o meu país”, desde que seja sempre um país livre...
*Edson Silva, 48 anos, jornalista da
Assessoria de Imprensa da Prefeitura de Sumaré - Email:
edsonsilvajornalista@yahoo.com.br |